Archive for July, 2008

Dercy

20 July, 2008

Acabou o bolão.

Não sei quem ganhou vou conferir depois. O negócio é que os juros foram tantos que hoje, o cara que colocou Cr$15,00 (leia-se “quinze cruzeiros”) na aposta ganhou R$ 16.743,83 contando o rendimento e a conversão do IRV.

Já reparou que a Dercy é daquelas pessoas que você nunca lembra de ter visto jovem? Tipo, Oscar Niemeyer, Aracy Balabanian, Costinha, Chacrinha, Hebe, Ivo Holanda e Ronald Golias. É como se eles nunca tivessem sido jovens; nasceram já com os peitos caídos e cabelos brancos, senis e impotentes. Talvez por isso a maioria deles seja comediante. A gente adora rir da senilidade dos outros

Alguém já se perguntou do que a Dercy morreu?

São Paulo, Cidade Aberta

11 July, 2008

foto

Foto de David Senra

Recado ao Ronaldo

7 July, 2008

Querido Ronaldo (ex-)Fenômeno:

Recomendo a leitura do conto Dia dos Namorados” do livro Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca, uma das primeiras aparições do advogado Paulo Mandrake no universo do escritor mineiro. Talvez tenha faltado um personagem desses em sua vida.

Atenciosamente,

Raul Arthuso

PS: Ah! Recomende a leitura para o seu empresártio também.

Alhos por Bugalhos

5 July, 2008

Li isto em uma crítica de Francis Volgner dos Reis sobre Cleópatra de Júlio Bressane no site da Cinética: “Basta querer “ver” para entender que essa lenda que os filmes de Júlio Bressane são prolixos é uma bobagem, retórica preguiçosa de quem opta por entender as coisas através de “lentes mentais”. Já alguém que nunca viu um filme na vida, e assista a Cleópatra, verá, essencialmente (e mais do que em qualquer outro filme), qual a sua particularidade como forma de expressão, desde um enquadramento que se sabe “composição”, passando pela disjunção da imagem sonora e da visual e chegando à musicalidade da disposição das imagens. É um filme didático (no bom sentido) que expõe de maneira clara “do que o cinema é feito”. Ele não viu (e acho que nem verá) WALL-E.

WALL-E

4 July, 2008

wall-e

WALL-E é um obra-prima. É Cinema. Tem beleza plástica, qualidade narrativa e coerência estética, momentos cômicos, agitados, tensos, líricos e emotivos. Joga com o espectador – não vomita nele.  É um filme que trata o espectador como igual e, por isso, é surpreendente, interessante, emotivo e muito inteligente. Não é apenas o que se pede de um bom filme – é isso e um pouco mais. Torna-se, então, inesquecível.

Noite de Estréia

3 July, 2008

Alan estava preocupado. Não podia esquecer suas falas, era noite de estréia, todo mundo ansioso, a crítica pronta a destruir a casa formada ao longo dos meses com todo cuidado e carinho. Mas também tinha Lucy. Ela, a linda, a assistente de direção do espetáculo, pequena, suave como a Vênus de Boticelli, com suas bochechas algodoadas riscando o ar por onde passava e destruindo o atrito exercido por ele com seu sorriso irradiante. Não há dúvidas de quer é bela e de que Alan está apaixonado como poucas vezes esteve. Sonhou com ela noites e noites em seqüencia, pensando no primeiro beijo atrás da coxia, o toque suave de suas mãos na cintura da garota, seus dedos tocantes as bochechas desbravadoras, as bocas se tocando com ardência em dia de primavera, um espetáculo da natureza formado por dois corpos juntos, imersos no infinitesimal do tempo, paralisados perante o esplendor de um único momento que se tornaria eterno. Não conseguia pensar nas falas.

Pensou em “Oh, meu Príncipe, o meu dever, por ser audacioso, prejudica o comportamento da minha afeição” nos últimos seis meses. Ensaiou as intenções, as pausas, as entonações, estruturou toda a psicologia do momento e buscou em seus banco as memórias afetivas. Tudo ruiu agora que Alan percebe que Lucy vem em sua direção, sorrindo, preocupada é claro, mas sorrindo, resplandecendo, dando aos pobres como ele mera esmola de beleza. Tiveram uma amizade que cresceu ao longo da produção.Lucy mora no mesmo bairro que Alan e ela sempre deu carona em dias de ensaio para garantir que ele não atrasasse. Não é sem razão que a amizade cresceu, pois caronas sempre pedem interação. Alan nunca confiou em si, porém sempre se impôs enquanto o mais desconfiado de si mesmo e isto sempre rende algumas boas risadas eventuais. É claro que as mulheres preferem a confiança que irão defendê-las do mundo, mesmo que isto traga junto uma série de qualidades pouco amistosas, àqueles que irão fraquejar frente ao leão de sete cabeças. Entretanto, algo dava esperança a Alan. Sim, ele sentia que seria ali, agora, o momento fora do quantum, a elipse da existência.

- Tá pronto, Alan? Você entra logo.

- Tô. “Mas não consigo comandar daí qualquer declaração harmoniosa; me falta perícia”.

Os dois riem. O sorriso dela é diferente: os dentes sobressaem, contudo não chamam a atenção, não tentam aparecer; formam uma simetria interessante com os lábios, puxam o que há de mais bonito no entorno e com isso formam um teatro mágico de forma e conteúdo.

- Parece que você ta pronto mesmo. Olha, fica tranqüilo tá tudo correndo super bem, ta bom?

- Tudo bem. Falta quanto tempo pra eu entrar?

- Cinco minutos. Cadê o Edu?

- No camarim. Ele gosta de ficar sozinho, rezar, baixar o personagem. Eu prefiro ficar aqui na quentura.

- Bem, eu vim aqui ver se está tudo bem e… desejar sorte, né?

- Obrigado.

- De nada.

Ela não vai. Silêncio. Ela continua ali. O que fazer? Silêncio.

- Eu preciso te dizer uma coisa.

- O quê?

Alan pega Lucy pela cintura e a beija. Ela não recusa, não se opõe, não o chuta ou empurra: Lucy beija Alan, que não acredita que o tempo parou, que tudo o que deveria ter ido não foi, que o universo é agora um beijo, um encontro de bocas, um gosto doce, um gesto de lábios, uma troca, um tudo.

Silêncio.

Um olhar.

- Eu preciso te dizer uma coisa.

- Fala.

- Eu sou casado.

- É sua hora.

Ela simplesmente se vira e vai embora. Será que ficou decepcionada? Sentiu algo. Ela volta com Edu, parece ter o olho cheio de lágrimas, mas não será só impressão? Lucy nem chega perto. Qual é a primeira fala.

- Pronto Edu?

- Vamos lá parceiro.

É hora do show.

- Maravilhoso, gente! Vocês foram um espetáculo! Com certeza nós vamos fazer uma temporada enorme, mesmo!

O diretor é um otário. Se acha pra caralho, mas não sabe de nada. Com o elenco que tem nas mãos ,é lógico que ia ser um sucesso; só tem gente boa e talentosa. O texto nem se fala, fora de questão. Uma das melhores traduções já feitas. Ele não teve que fazer nada, só comemorar, tomar seu champanhe, comer um canapé, agradecer, dar meia volta e sair.

No meio da comemoração, Lucy está sozinha, lacônica, toma a champanhe e conversa com as pessoas por convívio mais que por vontade. Ela olha para Alan que já está lá esperando há muito tempo. Ela desvia o olhar e volta a conversar com a equipe.

Quando ela pede licença, Alan vai atrás. Ele a interrompe; nunca teve tanta coragem assim.

- Lucy…

- Por que você falou aquilo? Eu não preciso saber disso!

- Mas você precisa saber. Eu preciso…

- Eu não quero saber! Olha, você quer saber? Eu tenho namorado! E agora? Como fica?

Eu não sei; ninguém sabe; alguém saberia?

- Eu só quero um negócio legal com você, mas não quero saber o que fazer da vida agora! Eu não preciso saber da sua mulher, da sua família. Só me pressiona, Eu não quero isso.

Ela desanima. Alan a abraça. Um abraço sincero, sentido, dois corpos jogados na vida sem órbita, passando pelos planetas sem saber onde vão se chocar. A fraqueza que os atinge se torna força. Alan, o covarde, ergue o rosto de Lucy, a bela, e a olha. O olhar comunicativo, sem palavras. Palavras não são nada, não tem significado, são padrão, norma. O olhar que Alan e Lucy trocam é conceito, é substância. O olhar seguido do beijo: ninguém vê, ninguém ouve, mas eles estão lá, protagonizando o espetáculo de suas existências e aplaudindo na primeira fila. Como num filme, Alan não sabe se sonha ou se vive, se pára em busca da verdade ou se deixa levar pela leviandade de um momento único que pode ser a maior das mentiras, o sonho de ser estrela, quando na verdade, tudo não passa de uma fantasia que, mesmo boa, acaba quando a cortina se fecha.

É dia. O despertador toca ensurdecendo Alan. Sua esposa se levanta e vai ao banheiro. Ele não entende nada, tira um cochilo. Algum tempo depois – não se sabe quanto, pois essas coisas não são medidas – a esposa de Alan abre as cortinas. É um belo dia de sol. Não há nada de diferente de outro belo dia de sol. Ela vai até ele, fica sobre ele e o beija com carinho.

- Meu bom senhor, permita-me uma palavra.

- Pode dizer meu nobre ator.

Alan tem uma sensação de tudo e nada, um paradoxo de instantes que duram eternamente. Algo engasga em sua garganta, mas não resiste e sai sem pedir licença.

- Te amo.

Isso deixa a esposa feliz, pois sabe que, dia após dia, a temporada não vai acabar.

O Ano do Universo

1 July, 2008

Achei interessante esse negócio: se a história do Universo fosse um ano a começar do Big-Bang e terminando no ano 2000, veja como estariam os principais fatos dessa existência distribuídos no calendário:

 

1º de janeiro: Big Bang

1º de maio: Origem da Via Láctea

9 de setembro: Origem do sistema solar

14 de setembro: Formação da Terra

25 de setembro: Primeira vida na Terra

15 de novembro: Origem das primeiras células com núcleo

17 de dezembro: Desenvolvimento dos invertebrados

19 de dezembro: Origem dos primeiros vertebrados

26 de dezembro: Surgem os primeiros mamíferos

28 de dezembro: Extinção dos dinossauros

31 de dezembro 13h30: Origem dos ancestrais pré-históricos do homem

31 de dezembro 22h30: Primeiros humanos

31 de dezembro 23h59min20: Invenção da agricultura

31 de dezembro 23h59min51: Origem da escrita

31 de dezembro 23h59min56: Nascimento de Cristo

31 de dezembro 23h59min59: Renascimento na Europa

Últimos instantes de 31 de dezembro: Século XX

 

Fonte: BRODY, David Eliot & Arnold R. Brody. As sete maiores descobertas científicas da história. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.