O que foi esse negócio da estudante Geyse Arruda perseguida na Uniban porque usava uma mini-saia?
Eu tinha visto uma imagens no YouTube, hoje vi a foto da garota no jornal. Acho já vi vestidos mais curtos que o dela no Domingão do Faustão e no Domingo Legal. Aliás, nesse último, há algum tempo, o Van Damme ficou de barraca armada ao se esfregar na Gretchen (que está longe de ser um espetáculo de beleza).
Meu espanto é com duas coisas. Primeiro, de tudo, o que acontece uma garota jovem vestida sensualmente passa? Bem, numa construção ou num posto de gasolina, por exemplo, os caras iriam assobiar, fazer graça (“deixa eu falar com a sogra!”), na pior das hipóteses, chamar de gostosa e falar do bundão. Por que raios numa (suposta) universidade pessoas (supostamente) mais estudadas tem uma reação tão fundamentalista?
A outra coisa são as opiniões das pessoas. Ouvi algumas dizendo que a garota errou por ir vestida daquele jeito, mas nada justifica a represália. Bem, a represália só existiu porque juntou a ignorância generalizada com a idéia de que a garota estava vestida de forma inconveniente.
Eu, sinceramente, não sabia que agora existe jeito correto de ir em tal ou tal lugar. Não vivemos numa sociedade livre, na qual todos tem liberdade de escolha, onde ir, o que comprar, o que ler e, também, o que vestir?
Acho que quem se veste como gótico, numa cidade às vezes quente e abafada como São Paulo, ridículo, assim como acho uma das coisas mais idiotas do mundo esse negócio de fazer festa de Halloween, importação sub-sub do subdesenvolvimento.
A questão principal é: eu acho idiota, mas nem por isso saio por aí invadindo as festas e xingando as pessoas. Inclusive é possível que alguém me chame pra ir numa e eu acabe indo, quem sabe até fantasiado de gótico. Sabe por que? Porque eu posso fazer o que eu quiser.
O que caso dessa estudante (que foi chamada de “Puta da Uniban” na internet) revela muita coisa, entre elas como o puritanismo e o politicamente correto ganham mais e mais espaço numa sociedade cujo traço sempre foi a malandragem e o “jeitinho”, não? E é uma baita hipocrisia num país que se vende no exterior pelas belezas – de paisagem, das mulheres e da alegria de seu povo. Ou a sensualidade da mulher brasileira só serve no carnaval, né, Pedro Cardoso?
Afinal, não moramos num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza? Mas que beleza…
O grande mérito de O Que Resta do Tempo é a consciência de Elia Suleiman sobre o tema principal de seu filme ser a memória e não o conflito entre palestinos e israelenses.
Isso é dado formalmente: apesar de começar em Israel logo após a criação do Estado Judaico, ele é antes de tudo uma coleção memórias e historietas agrupadas em quatro tempos distintos. O conflito militar é como o universo que rodeia as histórias, mas sempre subordinados ao poder criativo, pois impreciso, do relato baseado na memória do narrador.
Por isso, o filme é recheado de pequenos exageros, situações pontuais que dão vida à recriação narrativa dos quatro momentos históricos da vida da família Suleiman. E a palavra certa é esta: recriação.
Sua câmera reforça o pulso das lembranças ao permanecer estática, baseando toda a encenação do filme em tableux. Os planos fluem com uma musicalidade burlesca, como se um tema engraçado tocasse em diversos momentos, nos lembrando o caráter de construção estilística. Isso aumenta a sensação de coisas fora do lugar, dá um toque de permissividade para pequenas corruptelas humorísticas (como o soldado que, mais baixo que o prisioneiro palestino, tem de subir na pedra para tapar os olhos do preso ou o rapaz que passa assobiando temas musicais de filmes famosos). Ecoa Fellini, principalmente Amarcord, no qual as pequenas histórias de sua cidade natal compunham um descrição também sobre o narrador.
Este é, talvez, um grande tema do filme: como este universo formou o narrador, que é também personagem do filme enquanto espectador das cenas cotidianas. O Elia-personagem observa, vê um tableux para mostrar sua passividade observadora no contracampo. Elia-narrador sabe que tudo não passa de memória,recriação, tem plena consciência de que aquele na tela nada pode fazer para mudar o que é aquele que narra. Como já disse, um processo consciente de recriação, reconstrução.
Não é à toa que o subtítulo do filme é “Crônicas de um presente-ausente”. No último segmento do filme, o verdadeiro Elia Suleiman atua junto com sua mãe. A cidade já não é a mesma (ele vive no exterior), as pessoas da vizinhança mudaram, os hábitos são outros. Elia observa tudo impassível, meio descrente, meio desentendido, como na breve cena em que olha, da janela de seu hotel, um combate entre palestinos e o exército interrompido por uma mulher atravessando a rua com seu bebê no carrinho. Se até este momento, Suleiman construíra um painel algo cômico, algo impreciso que dizia muito sobre si mesmo, uma lógica que lembra Amarcord, agora a influência é Buster Keaton. Aqui a inadequação é do próprio mundo para com o narrador. Suleiman sabe que o presente (ausente) é sério e perigoso para que caibam nas corruptelas. Quanto mais o filme se alonga, menos estas tem lugar e Suleiman tem consciência de que trabalha com a força que suas imagens podem ter, culminando na cena em que ele pula o muro construído por Israel como se estivesse numa competição de salto com vara. Esta é a provocação do subtítulo. Enquanto vemos um presente cômico, simples, poético e absurdo, sempre temos em mente o presente-ausente, aquele do imaginário formado pelas trágicas notícias dos telejornais, da imprensa escrita e dos diversos filmes que já abordaram o tema.
Assim como Tarantino abordou a Segunda Guerra, em Bastardos Inglórios, reafirmando o poder criativo do cinema contra qualquer imaginário edificante e politicamente correto que o próprio cinema ajudou a construir – capaz de criar totens contra os quais é preciso a força do próprio cinema – Suleiman luta aqui contra o maniqueísmo fundamentalista e as idéias pré-fabricadas, que marcam muito do debate sobre seu presente, com a força das imagens, cheias de humor e uma acidez corrosiva.
O Que Resta do Tempo (The Time That Remains, 2009), dir. Elia Suleiman
Ontem fui à banca e vi a edição de setembro da “Cahiers du Cinéma” (essas coisas sempre chegam com certo atraso) e ela tem mudança na chefia de redação: sai Jean-Michel Frodon, entra Stéphane Delorme. A revista mais influente de cinema da história está pronta para reformulação.
Em janeiro deste ano, a revista foi comprada pela Phaidon Press, editora inglesa de livros de artes plásticas. A promessa com o anúncio do novo chefe de redação é uma modernização da revista tanto da aproximação junto aos filmes, quanto na parte visual. Há a promessa preparar a revista para o novo século (o que significa que já estão atrasados uns… 10 anos).
Nada muito concreto, por enquanto, e a promessa de novo visual já em 2010. Com a Phaidon, me parece, a idéia é internacionalizar a revista (edição em inglês?). Segundo o press release da editora, Delorme tem o perfil ideal para a nova fase da revista. A escolha dele significa algo se pensarmos que é um jovem crítico de 35 anos substituindo um renomado crítico de 58. Novos ares talvez? Mais juventude, mais pegada? As promessas são interessantes (a revista com aproximação às novas características da produção e cinefilia internacional, espaço crítico de criação e análise), mas como eu já disse, por enquanto é promessa.
Nesta edição, destaque para Singularidades de uma Rapariga Loura, novo Manoel de Oliveira, e Un prophète, segundo Delorme no editorial “o mais importante filme francês do ano” (e prêmio do júri no último festival de Cannes – por que não veio para a Mostra deste ano, aliás?).
Chamou minha atenção a extensa crítica a Bastardos Inglórios que me deixou com a impressão de analisar o filme com um certo pé atrás (aliás, segundo o crítico “Cães de Aluguel é nulo”).
Eu, particularmente, achei o filme uma obra-prima (ou será que Tarantino me convenceu com seu final?)
Já faz algum tempo que a Pixar assumiu a vanguarda dos filmes de animação americanos, não apenas por causa do impacto que Toy Story causou no gênero. A produtora, sob a batuta de John Lasseter, buscou sempre aliar a qualidade técnica com boas histórias. Com o tempo, a Pixar buscou desafios gráficos interessantes, como os pêlos em Monstros S. A., o mundo marinho em Procurando Nemo, superfícies metálicas em Carros e Wall-e. É, contudo, nos roteiros que a Pixar conquistaram a larga vantagem que suas produções tem hoje sobre a Fox de Era do Gelo e a Dreamworks e seu Shrek.
As histórias da Pixar buscam sair da pura infantilização, os roteiristas e diretores arriscam-se por terreno mais adultos, ou melhor seria dizer, maduros. Excetuando-se o comum Carros, suas últimas produções exploraram temas mais complexos na maioria das vezes de maneira fora do comum para filmes de animação. É o caso evidente de Wall-e e seus quase quarenta minutos com apenas um personagem em cena e suas várias camadas dramatúrgicas para abordar problemas como a destruição ambiental do planeta, o poder das megaempresas e a alienação do ser humano.
Não é diferente no lançamento deste ano da produtora, Up – Altas Aventuras. Algumas características em comum com outros filmes da produtora americana estão aqui de cara, a começar por partir do “filme de aventura” (como Os Incríveis partia dos super-heróis e Wall-e da ficção científica). E é inegável a influência de Indiana Jones e dos filmes seriados dos anos 40 e 50: o prólogo é uma adorável ode ao poder da imagem e desse universo fantástico sobre o imaginário da criança.
Neste início, o filme é muito eficiente em colocar em jogo os principais temas da história com economia de recursos e fluidez. Assim, rapidamente conhecemos a trajetória do ranzinza Carl Fredricksen que insiste numa vida de sonho que leva desde a infância. Carl é uma daquelas pessoas apegadas à sua rotina, ao seu estado de vida, avesso a mudanças, principalmente após a morte da esposa.
Aqui há o primeiro grande acerto do filme, pois é incomum se aproveitar de temas tão caros ao universo adulto como a morte, o ressentimento, a frustração dos sonhos não realizados, o apego ao passado e àqueles que já se foram. Não que isso seja abordado de maneira discursiva (quero dizer, verbalizada insistentemente ao longo do filme), longe disso. Como em Wall-e e Ratatouille, temas assim ficam numa camada intermediária da fábula, alcançada na maioria das vezes pelas sensações que as cenas causam no espectador. Obviamente, que há momentos em que o tema da morte e do desapego vem para a frente, mas nunca parece algo forçado, está sempre num tom certo, econômico, austero. O uso dos recursos dramatúrgicos e audiovisuais reflete a candura do olhar aos conflitos do protagonista.
Os conflitos do protagonista se afloram devido a Russell que, por engano, Carl para suas aventuras. Russell é um garoto escoteiro que tem problemas de relacionamento com o pai, mas cuja visão para o mundo ainda está em formação. Ele é a inocência do olhar que se contrapõe à descrença e ao dissabor de Carl para com a vida. Nesse sentido, o filme é um “buddy movie”, pois os personagens se completam em seus conflitos e contrastes, suas visões de mundo opostas, seus desejos divergentes que, no fundo, podem ser resolvidos com ajuda mútua, ecoando Harrison Ford e Sean Connery em Indiana Jones e a Última Cruzada.
Com o desenrolar da história e das aventuras de Carl e Russell em uma floresta da América do Sul, percebemos que Carl, assim como Russell, deve aprender com as aventuras que a vida proporciona. Outros “grandes temas” acabam por adentrar a história e Up…, ganha mais camadas e sensações quanto mais perto do fim se aproxima. É uma experiência intensa e divertida para o espectador, pois além da fábula em si, há toda uma reflexão sobre a terceira idade, em como tocar a vida mesmo quando todo o universo ao seu redor se desfaz. A melancolia ranzinza de Carl do início do filme vai progressivamente se tornando uma lição sobre como deixar o passado onde ele está; uma mensagem de superação que resulta, como em outros filmes da Pixar, menos do que é dito e mais pelo jogo entre os recursos de linguagem e as sensações que causam no espectador, uma experiência que não menospreza seu público.
Um bom exemplo dessa boa vontade com seu espectador é o uso da tecnologia 3-D, muito bem aproveitada em Up…, não apenas pelos objetos que passam para frente na tela, mas também no uso da profundidade em cenas perto de desfiladeiros e nos planos gerais, onde a paisagem se perde de vista e fica mais grandiosa com a utilização dessa tecnologia. O efeito plástico é marcante, pois vai muito além do impacto de alguns momentos; ele quer realçar a estética visual dos cenários criados, das florestas selvagens, das cavernas opulentas, o imenso céu azul. Talvez seja o primeiro grande exemplo de 3-D pensado dentro do conjunto estético do filme e não apenas como forma de engrandecer a exibição.
E a vida continua, como defende o filme, seja para Russell, Carl ou quem tiver idade entre esses dois personagens – ou seja, qualquer criança entre 7 e 70 anos de idade. Up…, para além de seu trabalho técnico bem sucedido, é um filme de sorrisos e lágrimas na medida exata de cada um que o vê.
A matéria da Revista da Folha deste domingo sobre a “louca por filmes” diz algumas coisas sobre muitas coisas a respeito da cinefilia. Explico:
A garota que dá título à matéria tem um blog chamado “A Bonequinha Viu” (em referência ao bonequinho d’O Globo) e chama a atenção pelos autógrafos de David Lynch e Juan José Campanella tatuados em seu braço.
Coisa nº 1: a garota tatuou a assinatura de Lynch, segundo a matéria, sem gostar ou conhecer direito a obra dele. Ela conseguiu o autógrafo no lançamento do livro dele no Rio. A amiga chamou, explicou quem era e ela foi. Tatuou no dia seguinte. Quando foi ver os filmes, não gostou. Segundo a reportagem, ela parou de ver O Homem Elefante no meio porque o protagonista era muito feio. Conclusão: a garota não é louca por filmes, mas louca por si só.
Coisa nº 2: A reportagem me dá a impressão de uma profunda boçalidade. Não conheço a garota, li poucas coisas de seu blog, não seria de nenhuma utilidade dissertar sobre seus méritos intelectuais. Eu, se fosse a bonequinha, ficaria profundamente envergonhada do retrato feito pela revista. Fez a garota parecer idiota, boçal, maria vai com as outras, caçadora de celebridades e uma louca desmiolada adolescente. Independente da falta de criatividade, escolheu o mais besta do ícones da crítica jornalística brasileira. Só não foi pior porque seu blog não se chama “A cri-crítica viu”.
Coisa nº 3: O ponto principal é que esta garota conseguiu uma credencial de imprensa da Mostra deste ano. Sim, ela frequenta as sessões junto com o Merten, o Inácio Araújo, o Sérgio Rizzo, o Kléber Mendonça Filho. A razão, pelo que a matéria me leva a crer, é que a assessoria de imprensa da Mostra segue a bonequinha no Twitter. Teve um ano que a Cinética recebeu um “Não” para as cabines da Mostra, gerou alguns protestos, não sei se voltaram atrás. A bonequinha pediu e recebeu, porque era seguida no Twitter. Tudo bem, ela escreve muito no blog e se propôs a cobrir a Mostra. Se eu soubesse que era fácil assim conseguir uma credencial, eu me proporia também. Aliás, recomendo a todos que pagam as permanentes (entre 90 e não sei quantos trocentos reais) que abram um blog e, ano que vem, peçam uma credencial de imprensa também.
Coisa nº 4: Sua “loucura” se deve aos 460 filmes que a bonequinha vê por ano. Seria por isso que ela foi considerada uma cinéfila pela reportagem da Folha? E por isso recebeu a credencial da Mostra? Fico pensando em quanto isso é sintomático da percepção que se tem da cinefilia. Parece que ser cinéfilo é ser um empregado que precisa mostrar rentabilidade. Ou seja, números. O que tem a ver a quantidade de filmes com ser cinéfilo? Digo, para ser cinéfilo é importantíssimo ver filmes, mas se eu apresentar minha caderneta com os filmes que já vi em algum lugar eu ganho meu atestado de cinéfilo? Minha irmã de sete anos vê, atualmente, dois filmes por dia na TV. Seria ela cinéfila e eu não sei?
Coisa derradeira: Tudo isso é pra pensar em como o ato de ver filmes, principalmente em época de Mostra, deixou de ser um prazer reflexivo para se tornar uma atividade contábil. A coisa mais comum de se ouvir numa fila da Mostra é “quantos filmes você já viu? Eu, uns quarenta…” quando na verdade o evento deveria servir para algo mais criativo. É uma oportunidade perdida de afastar a cinefilia do caráter numérico, seriado, mecanizado. Sair do ato em si e ir para o efeito também. Schoppenhauer recomendava que para escrever bem era necessário parar de ler qualquer coisa e se voltar para os clássicos. Tirando o exagero (que às vezes me parece irônico), talvez fosse o caso de parar para pensar que tão importante quanto ver um filme é não estar vendo filme. Afinal, onde foi parar a cervejinha entre um filme e outro?
Sofia Coppola se tornara a grande promessa da indústria quando se meteu a realizar Maria Antonieta. Muita gente não entendeu a proposta.
Ataque nº 1: é um passo atrás nas conquistas historiográficas quanto à imagem da rainha francesa.
Ataque nº 2: tudo é muito falso
Engraçado, porque o segundo ataque é a explicação do primeiro, pois tudo é propositadamente falso, por isso Coppola pode usar o rock-pop contemporâneo como trilha e exagerar nos figurinos, cenários e maquiagem. É o terreno do excesso, como o imaginário em torno de Maria Antonieta-figura histórica.
Um filme é, antes de tudo, um filme. Não se trata de reproduzir a história e sim de como a arte pode representar a realidade. Neste sentido, não há limites e este filme é um exemplo.
Sofia Coppola, no caso, pensou em Maria Antonieta como um filme hype, colorido sem ser extravagante, exagerado sem atingir extremos, chama a atenção antes de tudo, mas no todo se mostra comedido frente ao status quo da narrativa ficcional (não seriam características aplicáveis ao hype em si?).
Por outro lado, é esse conjunto que faz de Maria Antonieta um filme não muito empolgante.
Maria Antonieta (Marie Antoinette), dir. Sofia Coppola (CinemaxE – 22h00)
Acabo de ler algo interessante no “Atlas do Cinema Mundial” editado pelo Cahiers neste ano.
O lançamento de Kung-fu Panda, segundo o artigo, causou um debate nacional na China. Nas palavras do autor do texto: “O protagonista do filme é o tesouro nacional chinês e todos os elementos do filme são chineses. Por que não somos capazes de fazer um filme assim?”.
Isso vem bem a calhar no que uns amigos e eu concluímos sobre Rudo y Cursi. É um filme sobre dois irmãos de uma região muito pobre do interior. Um deles sonha em ser goleiro; o outro, cantor. O filme mostra a trajetória dos dois e envolve, entre outras coisas, pobreza e ascensão social, clientelismo, malandragem, vício em jogo, drogas, família, ascensão e queda, sonhos e decepções, e, acima de tudo, duas paixões populares brasileiras: futebol e música sertaneja (ou caipira, você vai entender o porquê).
Detalhe: o filme foi feito no México, dirigido pelo irmão de Afonso Cuáron, produzido por este, Iñárritu e Guillermo del Toro.
Rudo y Cursi foi um sucesso no México e nos Estado Unidos.
Eis a questão: por que o Brasil não é (e não foi nos últimos anos) capaz de produzir um filme comercial que junte este leque de questões tão próximas da nossa cultura popular?
Rudo y Cursi está longe de ser um grande filme, mas é pelo menos honesto, interessante, com uma certa ambição. Sai do imaginário classe média que marca os filmes do Daniel Filho.
Falta ao nosso cinema comercial trazer o imaginário popular brasileiro para o primeiro plano, nem que seja como penduricalho decorativo. Não se pode depender apenas dos “fatos reais” (Carandiru, Meu Nome Não Johnny), das figuras históricas (Olga, Cazuza) ou dos subprodutos televisivos (Se Eu Fosse Você, Os Normais). Deve haver um jeito de vender algo mais que a “limpeza” do pensamento pequeno-burguês e da zona sul carioca. Pode-se tentar. Por que não?
***
Outro ponto sintomático também é que Rudo y Cursi saiu direto em DVD. O que mais os distribuidores e exibidores brasileiros precisam para serem mais corajosos? Não muito corajosos, só um pouco mais?!
Carrões tunados? Mulheres gostosas? Mulheres gostosas nos capôs dos carros tunados?
James Gray é costumeiramente definido como um neoclassicista. Algumas vezes recebe o adjetivo conservador.
Seus filmes se articulam basicamente pela segurança da gramática clássica e vão se encontro com articulações próprias do cinema de um Ford ou Hawks. Daí o neoclassicismo.
O conservador vem dos supostos valores sobre os quais os filmes se movimentam, mais especificamente o valor familiar, os costumes sociais, a integridade do homem.
Há uma análise apressada nessa classificação. Primeiro, é verdade que sua referência vem dos grandes cineastas do cinema clássico, principalmente a tendência em colocar a câmera no nível do olho do homem, de se valer de uma espécie de naturalismo clássico (isso tem um pouco de Hawks, um pouco de Huston).
Entretanto, é interessante notar a total consciência de Gray nesse contato com o classicismo e como este entra na tela para que o jovem realizador americano possa se reposicionar em relação aos valores do cinema clássico e também da sociedade de seu tempo.
Sim, em Os Donos da Noite a família vence frente ao vício, mas isto não tem nada de edificante no caso, já que o protagonista é reprimido no meio da guerra entre o bem e o vício. Ele é uma vítima do não-lugar, da indefinição, que acaba por ficar do lado dos “bons costumes” pelo poder repressor que este tem, assim como o “vício” também pode esmagar as vontades da pessoa. Onde se pode enxergar conservadorismo, há na verdade uma marcação de posição quanto ao homem contemporâneo, que no caso era um mafioso.
Este parágrafo anterior poderia se referir em certa medida a Amantes. A grande diferença é que aqui Leonard é um homem literalmente dividido entre duas possibilidades (metaforicamente representada por sua bipolaridade): as duas mulheres com quem se relaciona ao longo do filme. Uma é a paixão, desejo, o sentimento puro e avassalador, impulso (Michelle); a outra é a convivência, a sociedade, a emoção domesticada ainda que verdadeira, o racional, o conforto (Sandra). É a partir dessa dualidade de pulsões que Gray desenvolve o universo familiar de Leonard, seus problemas interiores, seus impulsos.
Interessante notar como Gray representa essa interioridade de Leonard filmando a maior parte da história no pequeno apartamento da família, cheio de fotos e livros, sempre remetendo à memória, às sensações específicas da personagem. Quando Leonard está com Sandra, há mais espaço, mas também há vigas, espaços labirínticos. Gray faz uma apropriação bem delicada da Nova York mais esquecida, aquela que não aparece nos guias de turismo, o que nos remete ao melhor retrato que esta parte da cidade já recebeu a partir das mãos de Martin Scorsese. As duas cidades se encontram nas personagens, porém por ordens diferentes: em Scorsese manda a memória e o saudosismo do narrador; em Gray, a cidade é uma expressão eu-lírico.
Com sua câmera segura, sem floreios e sua capacidade de criar grandes imagens, Gray vai fundo na alma de Leonard e o transforma em representação do homem atual e suas fragilidades. Através dos dois romances que tomam caminhos imprevistos, entendemos a alma de uma personagem que no fim sublima para revelar a alma do universo masculino contemporâneo. Grey retrata um homem – o gênero masculino – que vive na encruzilhada de uma vida social da qual perdeu controle, revela a fragilidade e pasmaceira da qual este está cheio. Leonard é um espelho em pedaços, um retrato incômodo, mas necessário do homem do novo século, que já não pode se gabar de ser tão seguro e “macho” assim. Leonard é o homem cuja covardia toma cada vez mais espaço, mesmo que ele em algum momento se decida por agir. É um personagem que está mais para o Will Kane, de Matar ou Morrer, do que o Ringo Kid de No Tempo das Diligências. É uma obra de desmistificação e afirmação de outro imaginário masculino, mais distante da segurança, rumo ao desconhecido.
Amantes está para o homem de hoje como os filmes dos anos 60 e 70 que se dedicaram em entender de maneira complexa o universo feminino. Não é, apesar disso, apenas um “filme de menino”. Há também uma atenção à família e seus negócios, ao casamento, e, como já dito, um uso interessante dos espaços. E com este filme James Gray se mostra um cineasta à moda antiga com cabeça progressista, um realizador a se prestar atenção ainda que sua forma de representação esteja na contramão hype do cinema contemporâneo – ou principalmente por causa disso. É um cinema com os pés no chão e o olhar para o mundo.
Por que essa insistência contemporânea pelo “baseado em fatos reais”?
Seria uma idéia de aproximar a ficção da vida real?
Um caso que contraria o impulso atual é Perseguidor Implacável, grande filme de Don Siegel. Aqui, Clint Eastwood é um policial durão que resolve os casos passando por cima dos procedimentos e dos direitos. Siegel não se apóia no caso real ou no mundo para prosseguir com a ficção, pelo contrario, ele recria a realidade a partir da ficção, apostando na criatividade como forma de intervenção na realidade. Neste cinema, não há espaço para um Capitão Nascimento, pois para além do atraente denuncismo, há a vontade de envolver o espectador.
Como se sabe, o filme é baseado no caso de um serial killer que nunca foi encontrado (caso abordado no também interessante Zodíaco, de David Fincher). Isso pouco importa. Quando Harry Callahan está com sua magnum na mão, a história é recriada pela ficção, indagando o espectador sobre a validade disso que se enxerga na realidade como usual e comum (e bastante discutível): o assassinato e a impunidade, seja para o assassino em série ou o policial sujo (o “Dirty Harry” do título original). Trate-se, portanto, de uma reescrita do mundo a partir do desejo de reflexão.
É isso que importa muito mais à câmera de Siegel e não a recriação daquilo que se pode ver a olhos nus.
Perseguidor Implacável, dir. Don Siegel (TCM – 23h30)
Eduardo Coutinho se notabilizou por sua capacidade de incorporar momentos espontâneos e imprevistos em seus documentários baseados no corpo-a-corpo da entrevista, arte da qual se mostrou mestre no cinema brasileiro.
Com Jogo de Cena, Coutinho dá uma virada em sua carreira ao por em discussão sua principal técnica e construir uma brincadeira com relatos de mulheres sobre sua própria vida. A mistura dos relatos reais com interpretações por atrizes profissionais destruiu o documentário de entrevistas dentro de seu próprio seio e Coutinho, artífice da destruição, busca na poeira levantada um caminho de realização com Moscou, seu novo filme.
Aqui, Coutinho parte de uma encenação para documentar, escancarando desde já que o “documentário” partirá da ficção. Portanto, a construção do discurso surgirá no seio de um discurso ficcional já pronto e consagrado – no caso As Três Irmãs, de Tchekhov – mais uma fuga de seu caminho conhecido, do terreno que lhe é familiar.
Esta fuga não será tão fácil e é aí que reside um dos grandes interesses desta nova obra do documentarista. Há uma cena logo no início na qual Coutinho discorre sobre o objetivo do documentário que quer fazer aos atores do Grupo Galpão. Aos poucos, enquanto a projeção se desenrola, percebe-se que o projeto inicial se descaracteriza, sofrendo mutações, incorporando coisas imprevistas. A mutação – do autor e sua obra – ganha corpo na tela. Read the rest of this entry »