A matéria da Revista da Folha deste domingo sobre a “louca por filmes” diz algumas coisas sobre muitas coisas a respeito da cinefilia. Explico:
A garota que dá título à matéria tem um blog chamado “A Bonequinha Viu” (em referência ao bonequinho d’O Globo) e chama a atenção pelos autógrafos de David Lynch e Juan José Campanella tatuados em seu braço.
Coisa nº 1: a garota tatuou a assinatura de Lynch, segundo a matéria, sem gostar ou conhecer direito a obra dele. Ela conseguiu o autógrafo no lançamento do livro dele no Rio. A amiga chamou, explicou quem era e ela foi. Tatuou no dia seguinte. Quando foi ver os filmes, não gostou. Segundo a reportagem, ela parou de ver O Homem Elefante no meio porque o protagonista era muito feio. Conclusão: a garota não é louca por filmes, mas louca por si só.
Coisa nº 2: A reportagem me dá a impressão de uma profunda boçalidade. Não conheço a garota, li poucas coisas de seu blog, não seria de nenhuma utilidade dissertar sobre seus méritos intelectuais. Eu, se fosse a bonequinha, ficaria profundamente envergonhada do retrato feito pela revista. Fez a garota parecer idiota, boçal, maria vai com as outras, caçadora de celebridades e uma louca desmiolada adolescente. Independente da falta de criatividade, escolheu o mais besta do ícones da crítica jornalística brasileira. Só não foi pior porque seu blog não se chama “A cri-crítica viu”.
Coisa nº 3: O ponto principal é que esta garota conseguiu uma credencial de imprensa da Mostra deste ano. Sim, ela frequenta as sessões junto com o Merten, o Inácio Araújo, o Sérgio Rizzo, o Kléber Mendonça Filho. A razão, pelo que a matéria me leva a crer, é que a assessoria de imprensa da Mostra segue a bonequinha no Twitter. Teve um ano que a Cinética recebeu um “Não” para as cabines da Mostra, gerou alguns protestos, não sei se voltaram atrás. A bonequinha pediu e recebeu, porque era seguida no Twitter. Tudo bem, ela escreve muito no blog e se propôs a cobrir a Mostra. Se eu soubesse que era fácil assim conseguir uma credencial, eu me proporia também. Aliás, recomendo a todos que pagam as permanentes (entre 90 e não sei quantos trocentos reais) que abram um blog e, ano que vem, peçam uma credencial de imprensa também.
Coisa nº 4: Sua “loucura” se deve aos 460 filmes que a bonequinha vê por ano. Seria por isso que ela foi considerada uma cinéfila pela reportagem da Folha? E por isso recebeu a credencial da Mostra? Fico pensando em quanto isso é sintomático da percepção que se tem da cinefilia. Parece que ser cinéfilo é ser um empregado que precisa mostrar rentabilidade. Ou seja, números. O que tem a ver a quantidade de filmes com ser cinéfilo? Digo, para ser cinéfilo é importantíssimo ver filmes, mas se eu apresentar minha caderneta com os filmes que já vi em algum lugar eu ganho meu atestado de cinéfilo? Minha irmã de sete anos vê, atualmente, dois filmes por dia na TV. Seria ela cinéfila e eu não sei?
Coisa derradeira: Tudo isso é pra pensar em como o ato de ver filmes, principalmente em época de Mostra, deixou de ser um prazer reflexivo para se tornar uma atividade contábil. A coisa mais comum de se ouvir numa fila da Mostra é “quantos filmes você já viu? Eu, uns quarenta…” quando na verdade o evento deveria servir para algo mais criativo. É uma oportunidade perdida de afastar a cinefilia do caráter numérico, seriado, mecanizado. Sair do ato em si e ir para o efeito também. Schoppenhauer recomendava que para escrever bem era necessário parar de ler qualquer coisa e se voltar para os clássicos. Tirando o exagero (que às vezes me parece irônico), talvez fosse o caso de parar para pensar que tão importante quanto ver um filme é não estar vendo filme. Afinal, onde foi parar a cervejinha entre um filme e outro?
Tags: 2009, bonequinha, cinéfilo, cinefilia, cinema, folha, mostra





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27 October, 2009 at 10:50 pm
Esse tá do caralho também, inclusive recomendo como adendo pro postado no socasando. Bota um link lá, Raul!
8 November, 2009 at 2:34 am
Cadê o link para a matéria da Folha? Falha grave!
8 November, 2009 at 5:05 pm
A matéria da Folha só saiu no site pra quem é assinante. Mal aê.
9 November, 2009 at 6:50 pm
Olá Arthur, sou ‘abonequinha’. Se a matéria fez “garota parecer idiota, boçal, maria vai com as outras, caçadora de celebridades e uma louca desmiolada adolescente” esse mérito foi da matéria.
Começando q eu não sou adolescente, muito menos caçadora de celebridades, claro q conhecia a obra de Lynch, nao seri ‘louca’ do feito se nao conhecesse, , o caso foi qnd uma amiga me chamou p ver o lynch achei q fosse para ver o filme dele a principio, isso q gerou o equivoco.
A matéria diz apenas q eu frequentei as cabine, o resto é especulação sua.
E, convenhamos Arthur, se a matéria teve o viés quantitativo isso se deve ao que ela achou q interessaria público alvo da Revista, e que de longe resume alguma propriedade minha ou nao de cinéfila.
abrçs
11 November, 2009 at 7:17 pm
Tenho quase certeza que você não vai ler isso a não ser que eu use uma tática primária como colocar o link do seu site aqui (http://abonequinhaviu.wordpress.com/).
Depois disso uma pergunta: vc leu direitinho meu texto?
Eu não posso nem discordar do seu comentário porque na verdade eu nunca atribui o viés quantitativo a você, mas sim a uma maneira geral de como se enxerga a cinefilia a qual a Mostra é o bastião máximo disso.
Nunca disse que era adolescente e sim que a matéria fazia vc parecer um adolescente.
A especulação sobre as cabines não são minhas, são da reportagem.
E repito: meu texto discorre sobre as impressões que a matéria me deu sobre como se enxerga a cinefilia hoje, principalmente em tempos de mostra. Não tem nada mais do que isso. Não te conheço, não sei o que faz nem o que fez, mas saiu uma reportagem sobre você que significa muito sobre a maneira como se enxerga a cinefilia e, principalmente, como a Mostra faz a cinefilia parecer.