Por que essa insistência contemporânea pelo “baseado em fatos reais”?
Seria uma idéia de aproximar a ficção da vida real?
Um caso que contraria o impulso atual é Perseguidor Implacável, grande filme de Don Siegel. Aqui, Clint Eastwood é um policial durão que resolve os casos passando por cima dos procedimentos e dos direitos. Siegel não se apóia no caso real ou no mundo para prosseguir com a ficção, pelo contrario, ele recria a realidade a partir da ficção, apostando na criatividade como forma de intervenção na realidade. Neste cinema, não há espaço para um Capitão Nascimento, pois para além do atraente denuncismo, há a vontade de envolver o espectador.
Como se sabe, o filme é baseado no caso de um serial killer que nunca foi encontrado (caso abordado no também interessante Zodíaco, de David Fincher). Isso pouco importa. Quando Harry Callahan está com sua magnum na mão, a história é recriada pela ficção, indagando o espectador sobre a validade disso que se enxerga na realidade como usual e comum (e bastante discutível): o assassinato e a impunidade, seja para o assassino em série ou o policial sujo (o “Dirty Harry” do título original). Trate-se, portanto, de uma reescrita do mundo a partir do desejo de reflexão.
É isso que importa muito mais à câmera de Siegel e não a recriação daquilo que se pode ver a olhos nus.
Perseguidor Implacável, dir. Don Siegel (TCM – 23h30)
Eduardo Coutinho se notabilizou por sua capacidade de incorporar momentos espontâneos e imprevistos em seus documentários baseados no corpo-a-corpo da entrevista, arte da qual se mostrou mestre no cinema brasileiro.
Com Jogo de Cena, Coutinho dá uma virada em sua carreira ao por em discussão sua principal técnica e construir uma brincadeira com relatos de mulheres sobre sua própria vida. A mistura dos relatos reais com interpretações por atrizes profissionais destruiu o documentário de entrevistas dentro de seu próprio seio e Coutinho, artífice da destruição, busca na poeira levantada um caminho de realização com Moscou, seu novo filme.
Aqui, Coutinho parte de uma encenação para documentar, escancarando desde já que o “documentário” partirá da ficção. Portanto, a construção do discurso surgirá no seio de um discurso ficcional já pronto e consagrado – no caso As Três Irmãs, de Tchekhov – mais uma fuga de seu caminho conhecido, do terreno que lhe é familiar.
Esta fuga não será tão fácil e é aí que reside um dos grandes interesses desta nova obra do documentarista. Há uma cena logo no início na qual Coutinho discorre sobre o objetivo do documentário que quer fazer aos atores do Grupo Galpão. Aos poucos, enquanto a projeção se desenrola, percebe-se que o projeto inicial se descaracteriza, sofrendo mutações, incorporando coisas imprevistas. A mutação – do autor e sua obra – ganha corpo na tela. Read the rest of this entry »
Nunca me convenci da qualidade do cinema de Oliver Stone, por mais prêmios ganhe e teorias da conspiração que proponha.
O que me incomoda em seu cinema é uma idéia de abordagem da história que não ultrapassa os limites do senso comum, como um rabo preso com a opinião. A câmera está mais para reproduzir as ideias correntes do que investigar o que está por trás das personagens e do contexto.
Isso fica potencializado em Alexandre, onde Stone tenta retratar uma figura que é mítica e pouco se enquadra na definição de “politicamente correto”. E Stone tem tudo pronto na cabeça, por isso o imperador macedônico é um herói incompreendido, órfão de pai, dominado pela mãe e com um amor irrealizável. Alexandre parece um personagem histórico importante reduzido a um esquema.
Fica claro o embuste; as coisas parecem completamente fora do lugar. Stone não vai além do melodramático e produz uma obra que em sua maior parte é um disparate. Ou um constrangimento.
Um filme que se diz “Sonhos de tal cineasta” é uma grande promessa. Primeiro, porque todo bom cineasta tem um lado sonhador que o permite criar para além do cineasta comum. Segundo, porque o sonhador aqui é Akira Kurosawa possivelmente o mais importante cineasta oriental.
E o filme é uma série de historietas – bem, sonhos – que transitam entre realidade e sublime. O real se mostra através de dados históricos (como a bomba atômica e Van Gogh); o extraordinário nas situações, nos encontros ou desencontros, nos seres míticos tão caros à cultura japonesa. Enfim, os sonhos se compõe a partir da capacidade do mestre japonês de fabular o fantástico a partir dos dados do mundo.
É essa beleza de andar entre pueril e sublime sem deslanchar para o superficial ou o extravagante que demonstra a força do cinema de Kurosawa, tão magnífico quanto sóbrio.
Steven Soderbergh é o cineasta com a obra mais esquizofrênica atualmente. Ele transita de filmes ultra alternativos com histórias pretensamente profundas a grandes obras hollywoodianas como Erin Brockovich, Traffic e a franquia Não Sei Quantos Homens e Muito Menos Segredos.
O curioso é que no terceiro filme desta franquia – Treze Homens e um Novo Segredo – o diretor parece redescobrir a leveza perdida no segundo filme e mais uma vez faz uma filme divertido, ligeiro, relembrando a boa malandragem dos filmes de golpe.
Isso porque Soderbergh faz o simples: com um elenco cheio de classe, ele deixa os caras fazerem o serviço. O diretor aqui é como um treinador de um time de craques; apenas controla os egos e mostra segurança (com os recursos narrativos, no caso) para que as estrelas se divirtam e brilhem.
Treze Homens e um Novo Segredo, dir. Steven Soderbergh (Cinemax – 19h45)
Hoje é possível ver duas abordagens da tecnologia e dos efeitos especiais, uma seguida da outra.
A primeira é mais infantil e inocente. Trata-se de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã. O título é obscuro já que os efeitos especiais aqui funcionam para recriar um passado alternativo onde uma aventura fantástica é possível, com robôs, aviões ultramodernos para a época e artefatos científicos. A inocência está em achar que emular uma fórmula consagrada (o filme de aventura) se basta para fazer um grande filme. Com isso Capitão Sky parece um filme sem tempo, anacrônico em suas escolhas de encenação e roupagem. Então, ao que se refere o “mundo de amanhã” do título? Talvez a uma supervalorização da tecnologia frente ao humano, a perspectiva de não precisar sair de um estúdio para filmar o mundo e, talvez, trazer de volta um ator falecido para a tela (no caso deste filme, uma “ponta” de “Laurence Olivier”). Uma boa dose de especulação, sem dúvida.
Já Matrix é um filme maduro, cujo mote está em transformar a tecnologia em algo enigmático, com doa dose de encantamento, mas perigosa, deveras perigosa. O futuro é apocalíptico, o mundo é uma ilusão. As maravilhosas cenas de ação dão corpo a este filme que joga com a questão do real/fantástico e usa os efeitos especiais como forma de alcançar o fantástico no que é, supostamente, real – dualidade que não se repetiria no restante da franquia. Em Matrix, mais que uma ferramenta, os efeitos especiais discutem os fenômenos que se passam frente aos nossos olhos. Como acreditar naquilo que se vê? Pensando assim, não seria a matrix um cinematógrafo? Aqui a especulação dá lugar a exame fenomenológico.
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, dir. Kerry Conran (Warner – 21h00)
Matrix, dir. Andy & Larry Wachowski (Warner – 23h00)
Há uma grande melancolia em Paranoid Park. Ela se encontra na memória de um lugar perdido (o tal parque que dá título ao filme). Este éden é filmado em 8mm com música triste, câmera lenta, cores pastéis.
Contudo, o grande mérito de Gus Van Sant é tratar essa melancolia do protagonista, um adolescente que começa a descobrir os problemas da vida adulta, como uma sensação adulta, não infantil como o cinema costuma tratar os sentimentos juvenis. Um retrato maduro que evoca, em diversos momentos, a alegria memorialista de Fellini através das músicas de Nino Rota.
O rito de passagem deixa, então, de ser apenas uma peripécia e passa a ser um desafio: descobrir a si mesmo e entender também o mundo, apreciando as pequenas coisas e os grandes sentimentos. Mais que uma ponte, o que melhor traduz esse rito, em Paranoid Park, é uma pedra no meio do caminho.
Paranoid Park, dir. Gus Van Sant (Telecine Cult – 17h30)
Um dos aspectos mais interessantes de Filhos da Esperança está além dos aspectos políticos ou da visão apocalíptica do futuro. É no protagonista, um personagem longe de ser um herói de filmes de ação como se vê na ficção científica há algum tempo.
Clive Owen cria uma anti-herói que é um pouco paspalho, um pouco sentimental, apesar de ser, inegavelmente, durão. Enquanto os principais eventos da história acontecem, ele parece não saber muito bem o que fazer, age por intuição, segue a biruta humana que pode levar ao erro, ao desastre.
É a este ser humano vivendo sua vida medíocre e, sem querer, jogado no olho do furacão da história que a humanidade deverá sua salvação.
Alfonso Cuarón com todo o barroquismo e complexidade técnica dos planos, cria um filme intenso no qual defende que apesar da grandiosidade de todos os heróis, o futuro – e a história como um todo – é feito por homens comuns.
Filhos da Esperança, dir. Alfonso Cuarón (TNT – 22h00)
Quando do lançamento de Primo Basílio, Daniel Filho indicara que o povo brasileiro era noveleiro e que as mulheres ainda escolhiam o programa de cinema de um casal comum.
E o que isso tema ver com cinema? Aparentemente nada.
Mas talvez tenha alguma ligação com o que Daniel Filho acredita ser audiovisual: um sub-produto televisivo. Pois este filme não passa, nesta concepção de audiovisual, de uma receita: um galã mau caráter, uma mocinha inocente, um marido dedicado porém ausente, uma amiga que trai seu marido para evitar o tédio, a vilã traiçoeira. Personagens esquadrinhados e tratados com palidez em uma história melodramática com o selo de qualidade de produção da maior rede de televisão do país. Nesse cenário de audiovisual, junta-se a fome com a vontade de comer.
O que diferencia basicamente o romance moral de Eça de Queirós do moralismo televisivo de Daniel Filho é que enquanto os exageros literários do português deixam para as entrelinhas a função de questionar seu tempo e lugar (o romantismo literário e a sociedade de aparências lisboeta), o filme do brasileiro se movimenta em direção a uma limpeza de qualquer traço de registro histórico, político, geográfico, social, seja em primeiro ou segundo plano.
Com isso, só está claro o melô. A roupagem é inspirada em Nelson Rodrigues, o que, sem a dramaturgia irônica deste, deixa mais exposta a receita de bolo audiovisual de Daniel Filho. Tudo está às claras em Primo Basílio, menos porque o interesse esteja em uma segunda camada, mas porque é feito para quem, supostamente, não sabe ver.
Como tratar da biografia de um artista? Todd Haynes arriscou-se pelo caminho tão tortuoso quanto fértil da abordagem do criador através de sua criação. Como a abertura de uma bíblia, o que encontramos em Não Estou Lá não são fatos, mas relatos, recriações, fabulações.
Não há no filme sentenças de adoração ou reprovação, nem o velho trio ascensão-queda-retorno. Não Estou Lá é um mosaico das facetas artísticas que compõem o mito Bob Dylan. Este não deve ser tocado, nem presente está para sê-lo. Dylan é uma entidade que se mostra em formas diferentes, concretizando sua mitologia menos por sua vida factual, mas por suas peripécias recontadas em poesia e música. Uma espécie de deus.
E se Dylan é uma divindade, não pode ser preso dentro da emulsão, apenas resvalado por alternativas de encenação para lidar com sua persona em constante transformação: atores diferentes o interpretando, texturas de imagem, recriações fabulescas das peripécias. Portanto, especulação, recriação, poesia.
Não Estou Lá, dir. Todd Haynes (Telecine Cult – 23h25)