“Uma obra bela é aquela que durante um tempo dá a impressão de ser o único objeto – o indispensável, o verdadeiro. E quanto maior esse tempo, mais ela é bela. Mas eu sei que sempre acaba.”

Nova edição da Cinética, dedicada a Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa.

 

EDITORIAL

Passado e presente por Fábio Andrade e Filipe Furtado

 

EM PAUTA – Cavalo Dinheiro

Com vista para dentro por Fábio Andrade

Cavalo Dinheiro e a arte do retrato por Luiz Carlos Oliveira Júnior

Matéria sólida: alguns sedimentos e procedimentos em Cavalo Dinheiro por Juliano Gomes

Monumental dialética por Luiz Soares Júnior

Ventura, Vitalina e Portugal entre a luz e a escuridão por Marcelo Miranda

O som em fiapos por Raul Arthuso

Elogio da repetição: de Tarrafal a Cavalo Dinheiro por Victor Guimarães

Ventura zumbi por Rafael C. Parrode

Do chão das vozes às vozes sem chão: ecos entre António Reis e Pedro Costa por Pablo Gonçalo

 

EM VISTA

Presente do pretérito por Fábio Andrade

Uma certa poética da perversidade por Pablo Gonçalo

O ritmo dos contrastes por Raul Arthuso

Wes Craven e os pesadelos da representação por Marcelo Miranda

 

EM CARTAZ

Em destaque: A visita, de M. Night Shyamalan por Fábio Andrade, Arthur Tuoto e Leonardo Amaral

Em debate: As 1001 Noites, de Miguel Gomes por Pedro Henrique Ferreira e Fábio Andrade

Star Wars – Episódio VII – O Despertar da Força, de J. J. Abrams por Raul Arthuso

O fim de uma era, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti por Juliano Gomes

Pasolini, de Abel Ferrara por Luiz Soares Júnior

Olmo e a gaivota, de Petra Costa por Dalila Martins

Orestes, de Rodrigo Siqueira por Victor Guimarães

Beira-Mar, de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon por Marcelo Miranda

Chatô, o Rei do Brasil, de Guilherme Fontes por Raul Arthuso

Operações especiais, de Tomás Portella por Marcelo Miranda

Carol, de Todd Haynes por Fábio Andrade

Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang, de Walter Salles por Elie Aufseesser

La Sapienza, de Eugene Green por Luiz Soares Júnior

Norte – O fim da história, de Lav Diaz por Filipe Furtado

 

EM CAMPO

Entrevista com Miguel Gomes por Fabian Cantieir, Juliano Gomes e Pedro Henrique Ferreira

Cobertura da 9ª Mostra Cine BH (inclui uma entrevista com Lucrécia Martel)

VII Semana dos Realizadores

Ecos do Festival de Locarno

53º New York Film Festival

A mise-en-scène é

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Paris nous appartient

La religieuse

L’amour fou

Out 1

Céline et Julie vont en bateau

Duelle

Noroît

Merry-go-round

Le pont du nord

L’amour par terre

Hurlevent

La bande des quatre

La belle noiseuse

Jeanne la pucelle

Haut bas fragile

Secret défense

Va savoir

Histoire de Marie et Julien

Ne touchez pas la hache

36 vues du Pic Saint-Loup

 

 

“A multiplicação de fracassos, em cinema e em tudo o mais, aparece finalmente como condição sine qua non dos êxitos possíveis. A desilusão, a mediocridade, a frustração, o engano e o desengano de milhares são o humus dos altos momentos de qualquer cinematografia.”

***

“Humbero Mauro, Mario Peixoto e Lima Barreto são as personalidades mais fascinantes da história do cinema brasileiro. A mania de grandeza não é neles traço negativo de caráter, e sim arma para combater a frustração a que se vêem até hoje condenados todos os artistas e artesãos do cinema brasileiro. A sua megalomania é na verdade grito de protesto.”

Por vezes, nós, críticos, cinéfilos ou meramente interessados, deixamos passar algumas coisas, talvez não essenciais, mas interessantes de se discutir. Copa de Elite por exemplo. É uma comédia para o grande público, como tantas que saíram aí. Mas nem tanto.

O filme parte de outro lugar: não é uma comédia baseada no imaginário da televisão, mas na forma da paródia pop de David Zucker, dos irmãos Wayans, em especial, me parece, os filmes do Leslie Nielsen.

O centro de tudo não é o imaginário da classe média branca da zona sul carioca e suas “altas confusões”, mas o próprio imaginário consumido por essa classe média: os blockbusters brasileiros, tendo como ponta de lança Tropa de Elite. Daí deriva uma certa idéia de cultura pop brasileira manejada ao longo do filme: futebol, papa, Oscar, Mojelo, Bruno de Lucca, Anitta, filme de ação bem anos 80.

As comédias investiram muito de seu esforço em construir um imaginário que não precisava ser construído. A classe média já se reconhecia na TV: crise conjugal, consumo, relações recalcadas de classe. O cinema servia como certa sofisticação do pacote. Nele é possível tocar em alguns temas tabus como a sexualidade, mesmo que com certo pudor e sempre sem se comprometer com a quebra desses tabus, já que era possível tocá-los sem destruí-los com boas risadas e uma moral da história.

O fato novo em Copa de Elite é uma consolidação desse imaginário pop, sem necessidade de explicações ou desculpas. As coisas estão aí, o filme joga com elas. Me parece, nesse sentido, não pedir desculpas por ser quem é. Intuo que o filme marca um momento das comédias brasileiras de sucesso em que elas já criaram sua própria linguagem, sua própria fórmula originada da perversão da dramaturgia da TV, mas agora afasta e com vida própria – e problemas próprios, crises próprias .

Uma dessas crises continua a ser a sexualidade. Interessante sua esquizofrenia no filme: na mesma cena em que um “caralho voador” atravessa o quadro, a personagem aparece seminua com os seios cobertos por canecas de seios; fala-se em bunda, em cu, em caralho, mas nenhum corpo se expõe. E, por outro lado, existe a piada com Minha mãe é uma peça com Alexandre Frota fazendo a mãe do protagonista e sendo tratado como mulher o tempo todo, mas ele age como homem, não muda sua voz e vai ao banheiro mijar de pé. O sexo é ainda a barreira a ser atravessada, como se o público quisesse saber, mas não ver; é o pudor “retroalimentando” o despudor: olhe, mas não toque; fale, mas não deseje.

De qualquer forma, há uma mudança simbólica do status: o Brasil com síndrome de vira-latas já não parece existir. Há agora um país cosmopolita, inserido na ordem mundial do capital e capaz de fazer troça de suas próprias desgraças, não só da dos outros.

*

Curioso o papel de Rafinha Bastos no filme: um ator ressentido que, sob a capa de uma celebridade simpática, quer apenas reafirmar seu próprio vestígio e deixar todos beijando seus pés. Por trás do altruísmo, um poço de raiva, ressentimento e desejo de menosprezar o outro. Por vezes pensei se o próprio Rafinha não percebia o espelhamento (acredito que involuntário) da personagem com ele mesmo. Outras vezes, ignorei a péssima atuação, pois acreditava numa verdade ali para além da dramaturgia. Não acho que isso é pouco.

*

Muitas vezes, esquecemos que os filmes vivem num mesmo mundo, por mais distantes que habitem um do outro.

Copa de Elite Ela Volta na Quinta vivem no mesmo Brasil, no mesmo tempo. São duas visões desse mundo completamente diferentes: o primeiro vê no imaginário popular do Brasil pós-Lula uma biblioteca de onde se pode extrair uma certa vivência e experiência de mundo; o segundo tira da experiência de estar no mundo de suas personagens um imaginário popular que retrata o Brasil pós-Lula. Mas, em essência, os dois partem de uma cultura brasileira cosmopolita, inserida na ordem mundial e no desenrolar da história. Brasil de consumo e consumidores; Brasil de afirmação de si no cenário cultural. É claro (volto a afirmar): os dois filmes habitam lugares diferentes, posicionam-se em setores diferentes da sociedade, do mercado e da cultura, o que se manifesta no interior das obras. Mas são ambos filhos do tempo, desse tempo.

Não, Inácio.

http://inacioaraujo.blogfolha.uol.com.br/2014/11/24/mike-nichols/

Admirar Mike Nichols pelo valor de seu artesanato, tá certo: Nichols conseguiu sobreviver durante vários anos com produção ininterrupta em Hollywood com eventuais sucessos de bilheteria e prêmios. Fora isso, foi um cineasta comum: eficiente na narrativa, seguro na direção de atores, um condutor de roteiros com algumas idéias de transposição da história em imagem. Só.

Fez um grande filme (The Graduate) mais pelo espírito da época (e esse é um mérito dos bons artesãos). Ter esse filme no imaginário cultural está de bom tamanho para Nichols. Não fazia falta ao cinema há algum tempo. A questão está menos nos achados aqui e ali que um diretor é capaz de descobrir e mais em realizar grandes filmes. Nisso Mike Nichols ficou devendo.

Sua apreciação está de bom tamanho no espaço reservado a ele nas enciclopédias das idéias narrativas.

“Nada incita tão exaltada, licenciosa e desordenadamente à ação como o medo da dissolução da ordem, encarnada  pela figura do viscoso. Mas há muita energia fervendo nesse caos. Com um pouco de habilidade e astúcia, ela pode ser reunida e de novo desenvolvida para dar ao desgoverno uma direção. O medo da parte do viscoso, desencadeado pela falta de poder, é sempre uma arma tentadora a se acrescentar ao arsenal dos ávidos de poder. Alguns desses últimos vêm das fileiras dos apavorados. Podem tentar usar as porções de medo e ira acumulados para cair fora do gueto sitiado ou, como Ervin Goffman espirituosamente sugeriu, para vir a ser uma muleta, em vez de um taco, num clube de golfe. Eles podem tentar condensar o difuso ressentimento dos fracos numa investida contra os estranhos igualmente fracos, fazendo assim do medo e da ira a argamassa para os alicerces do seu próprio poder, tão tirânicos e intolerantes quanto é capaz de ser o poder, ao mesmo tempo afirmando, a todo momento, defender os fracos contra os seus opressores. Mas também outros que procuram o poder são atraídos. Só se precisa, afinal, dirigir uns poucos quilômetros para se encher o tanque vazio do nacionalismo com um combustível racista. Nem é necessária muita habilidade na navegação para fazer as velas nacionalistas colherem o vento que sopra do ódio racista; para alistar, com o mesmo sinal, os sem poder a serviço dos ávidos de poder. O que se precisa é tão-somente lembrar-lhes a vicosidade dos estranhos…”

“A crescente magnitude do comportamento classificado como criminoso não é um obstáculo no caminho para a sociedade consumista plenamente desenvolvida e universal. Ao contrário, é seu natural acompanhamento e pré-requisito. É assim, reconhecidamente, devido a várias razões, mas eu proponho que a principal razão, dentre elas, é o fato de que os “excluídos do jogo” (os consumidores falhos – os consumidores insatisfatórios, aqueles cujos meios não estão à altura dos desejos, e aqueles que recusaram a oportunidade de vencer enquanto participavam do jogo de acordo com as regras oficiais) são exatamente a encarnação dos “demônios interiores” peculiares à vida do consumidor. Seu isolamento em guetos e sua incriminação, a severidade dos padecimentos que lhe são aplicados, a crueldade do destino que lhes é imposto, são – metaforicamente falando – todas as maneiras de exorcizar tais demônios interiores e queimá-los em efígie.”

“Cada vez mais, ser pobre é encarado como um crime; empobrecer, como o produto de predisposições ou intenções criminosas – abuso de álcool, jogos de azar, drogas, vadiagem e vagabundagem. Os pobres, longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação – como a própria encarnação do pecado. (…) Como expressou o New York Herald Tribune, em 25 de dezembro de 1994, os americanos – conservadores, moderados, republicanos – consideram direito seu culpar os pobres pelo seu destino e, simultaneamente, condenar milhões de seus filhos à pobreza, fome e desespero. (…) creio que o sinal que envia é suficientemente claro: há provas esmagadoras de íntima vinculação da tendência universal para uma radical liberdade do mercado ao progressivo desmantelamento do estado de bem-estar, assim como entre a desintegração do estado de bem-estar e a tendência a incriminar a pobreza. Espero sinceramente que o testemunho americano nos sirva de advertência, não de exemplo. Quisera, porém, que as minhas esperanças fossem mais bem fundamentadas.”