Scarface, 1932

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Se fizéssemos uma história genealógica do Cinema, o filme de gângster ganharia sua atual forma iniciando-se com Scarface de Howard Hawks. Parece clichê dizer que este filme é o avô de O Poderoso Chefão, mas a coisa pode ser explicada em termos mais precisos: se houve um momento em que o filme de gangster deixou de ser apenas diversão e passou a pensar, foi aqui. Com a vigência do Código Hays em meados dos anos 30, o cinema americano só conseguiria liberdade de pensamento parecida apenas 30 anos depois.

Por isso, impressiona a jovialidade e o grau de violência desta pequena pérola do início dos anos 30. A primeira sequeência é antológica: o chefe da máfia, está num bar após o término de uma festa em sua homenagem; ele vai até a cabine telefônica e então a camera o abandona. Entra em quadro a sombra de um homem assoviando determinada música. O homem pára, saca sua arma, mata o chefão e sai tranquilamente.

Se pensarmos num gênero que fascina os homens como o gangsterismo – no fundo sempre quisemos ser tough guys – Hawks faz uma bela crítica ao mostrar o gângster como uma criança impressionada com as possibilidades de poder e dinheiro. Isso fica claro na cena em que o protagonista interpretado por Paul Muni é atacado num restaurante por homens com metralhadoras e, abaixado para não levar os tiros, fica maravilhado ao perceber que são metralhadoras automáticas e pede a seu comparsa que arrume uma para ele. É simples, mas é um primeiro passo na busca por entender esse tipo de personagem social.

Junto com essa tentativa de dar complexidade ao protagonista, há a importância da encenação em Scarface. Howard Hawks era um mestre da filmagem ao nível dos olhos: os planos buscam a verdade ao captar o olhar diretamente como se estivéssemos ali junto com as personagens. O olhar como janela da alma, capaz de traduzir em imagens o ódio, o amor, a dúvida, o fascínio, o desespero. A encenação é toda composta por essa “verdade ao nível dos olhos”, a verdade do ator em cena, e, em consequência, a verdade do cinema. Uma arte clássica.

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