Jogos Engraçadinhos….

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Michael Haneke é um cara engraçado. Ele não acredita nem no cinema nem na humanidade.

A imagem tem um poder absurdo e, por ser feita por homens, ela agrega tudo que a há de ruim em seu criador para ser consumida por… outros seres humanos que passarão a fazer na vida as besteiras que a imagem carrega. Entendeu? Pois é, ele persegue isso em seus filmes há pelo menos quinze anos. Vídeo de Benny tem isso, Código Desconhecido tem, Caché também.

Funny Games é obra síntese dessa descrença: dois sádicos querem brincar de matar. O motivo? Pra que ter motivo? Um deles interage algumas vezes com o público tentando elucidar a manipulação das imagens, um plano mostra uma televisão banhada de sangue, quando algo dá certo para as vítimas da dupla, um deles aperta o rewind do controle remoto, volta no tempo e recoloca as coisas no rumo certo (ou não). O homem quer matar sem razão, a imagem propaga isso.

O nihilismo de Haneke é tão inocente que chega a ser romântico. Por isso é que o impacto é mais que a profundidade. Resultado: uma refilmagem plano-a-plano só que falado em inglês. Funny Games U.S. tem as mesmas qualidades e os mesmos defeitos: o suspense é ótimo, o clima criado segura o espectador. Mas quando começa a mão pesada do realizador na desconfiança de tudo, começa a ironia de revista de fofoca (a saber, aquela que dá uma alfinetada para vender mais). Funny Games U.S. é apenas um reciclado, nada mais. Poderia ser um ótimo thriller que, pelo choque, talvez atingisse mais o espectador e alertasse mais para as questões que pretende abordar. Assim como o original, cai na fraqueza de forçar o seu caráter de filme de arte. Vira nihilismo de butique.

Eu desconfio que Michael Haneke precisa de um analista. Ele sabe narrar com a câmera. Só falta exorcizar seus traumas.

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4 comentários
  1. Lucas disse:

    A grande relevância de Haneke é que ele percebeu a desnecessidade de narrar. Ele sabe narrar, mas qual o sentido disso? Se o filme fosse “só” mais um thriller, seria só mais um filme. Mas ele não o é.

  2. Raul Arthuso disse:

    Não, Lucas. É só picaretagem mesmo.

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