O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronosfky (EUA/França – 2008)

Mudança de Hábito 

    Darren Aronofsky sempre me incomoda por seus vícios de linguagem que respondiam mais por sua vontade pessoal do que por uma construção fílmica coerente e interessante. Assim, Pi e Réquiem para um Sonho são filmes mais empolgantes do que envolventes. Quando a experiência do espetáculo passa, ficam migalhas.
    Não se pode negar que em O Lutador Aronofsky tenta outro tipo de construção. Saem as repetições de planos próximos descontextualizados, efeitos de montagem e manipulações simplistas do som com trilha musical; entram uma certa pesquisa de personagem e o trabalho inteligente com a figura dos atores: a brutalidade sensível do corpo gigante e do rosto (semi-)desfigurado de Mickey Rourke cativa o público, assim como a beleza melancólica de Marisa Tomei. O velho enredo de ascensão e queda aparece aqui aliado à vida pessoal de Rourke, talvez para lembrar que o cinema, muito mais que uma simples construção formal, é também um veículo para falar das pessoas, sejam atores ou não. Aronofsky acredita na mudança das pessoas, mas acima de tudo vê no amor pelo ofício o motor da existência: você é o que faz, ou melhor, você é o que deixa para as gerações futuras. É por isso que o personagem de Rourke não tem medo de morrer lutando (expressão significa ativa no caso deste filme), já que realizar aquilo que o faz feliz é uma forma de transmissão de conhecimento para a eternidade. No fundo, assim como as imagens captadas pelo cinema – ou pelo menos o que interessa no cinema – o protagonista de O Lutador quer sobreviver ao tempo. Isso só pode ser feito com amor ao ofício.
    Alguns vícios de construção formal continuam em Aronofsky, como a sequência em que ele aproxima a preparação de Rourke no trabalho com a de uma luta, que está longe de ser sutil, ou o início do filme em que evita mostrar o rosto de Rourke forçosamente. Depois do inexplicável Fonte de Vida, Aronofsky tenta um outro tipo de cinema, uma mudança de rumos em sua carreira. Talvez O Lutador fale sobre a carreira do diretor tanto quanto da seu ator principal.

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2 comentários
  1. Luara disse:

    Quando leio esse tipo de crítica fico realmente chateada. Que vocês críticos de cinema – ou não-, não se ofendam, confundir “vícios de linguagem” com as ferramentas plásticas do cinema sendo utilizadas perfeitamente para criar sensações e conceitos é de uma pobreza de repertório imensa. Onde foram os conhecimentos de Pierce, Eisenstein, Lúcia Santaella, etc??? O “inexplicável Fonte da Vida”, felizmente, pode ser explicado pela semiótica… O incrível dos filmes dele é que após a primeiridade (citada na teoria de Pierce), “quando a experiência do espetáculo” passa, ao invés de migalhas, conseguimos desvendar conceitos intertextuais que se vê muito pouco nos filmes de hoje. Darren Aronofsky é um gênio para poucos….

    • Raul Arthuso disse:

      É querida… Gênio para poucos não é coisa do cinema, talvez da semiótica.

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