Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2009), de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal

A ferida aberta

O documentário musical brasileiro está com tudo. Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei é mais um sintoma desse fenômeno que aposta em figuras famosas da música, performances clássicas com outras pouco conhecidas vindas de imagens de arquivo e entrevistas com famosos sobre o documentado.

Contudo, Simonal… é um filme diferente no meio dos outros. Primeiro, porque a música está impregnada no filme sem, porém, ser a grande estrela do filme. As performances musicais estão em pílulas o que não atrapalha o ritmo do filme com interlúdios musicais muitas vezes repetitivos e ainda aumenta o espectro de imagens de arquivo dos shows inseridas.

Há também a diferença crucial: mais do que exaltar Wilson Simonal, o filme busca inocentá-lo das acusações que recebeu de informante da ditadura, o que o baniu da música após o auge da carreira em meados dos anos 70. Para trilhar esse caminho de redenção, a construção do discurso é didática: primeiro apresenta-se um herói popular que superou pobreza, preconceito racial e se transformou no mais famoso cantor brasileiro; depois, exalta-se o nacionalismo: Simonal inventou, dizem, um jeito de cantar completamente brasileiro, ele refletia o jeito brasileiro; em seguida, diz-se que sua queda foi provocada por um qüiproquó fruto da inocência do herói, aproveitado por seus terríveis opositores; por último, a conclusão de que não é possível manter o herói no limbo da música brasileiro, tem-se que exaltá-lo.

Há uma construção inocente – ou seria o contrário? – nessa visão de mundo simplista de enganos e desenganos, ascensão e queda, sucesso e esquecimento. A ficção, entretanto, mostra como esta estrutura de ascensão e queda é convincente. Por outro lado, no caso de Simonal… não se trata de um filme ficcional e o grande problema reside na crença do lado ficcional da história ou, para ser mais exato, na edição que os realizadores fizeram da história para que sua tese pudesse valer, isso porque a história – no caso da ditadura militar brasileira – é mais profunda e nebulosa do que o vemos em duas horas de projeção – ou três, quatro, cinco.

A edição da história em Simonal… deve ser discutida, mas independente das crenças ou de novos fatos que se possa descobrir sobre o processo do cantor, o filme deixa claro o quanto a ferida de nossa história recente ainda está aberta.

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