Coração Vagabundo (Brasil, 2009)

Guardando o Mundo

Na primeira seqüência de Coração Vagabundo, a câmera entra na casa de Caetano Veloso e anda pelos cômodos até encontrar o cantor se trocando, revelando sua nudez em um breve momento.

Daí, poderíamos supor que a força motora do filme seria a vontade de desnudar o personagem-cantor Caetano Veloso para encontrar o que há por trás do mito. Contudo, o que acontece é o trânsito pela extensão cosmopolita da fama do cantor, já que o fio condutor do filme é a turnê de Caetano pelos Estados Unidos e Japão do disco A Foreign Sound.

Dizer que há um trânsito durante o filme é literal: a câmera está sempre em movimento acompanhando caminhadas de Caetano nas cidades da turnê, suas visitas turísticas, seus encontros e entrevistas. Quando não temos este deslocamento, o diretor coloca cenas de movimento com a câmera em carros, trens, metrô.

Esse movimento busca contrapor o caráter moderno e agitado das metrópoles com o suposto provincianismo do homem de Santo Amaro. “Eu vivi até os dezoito anos em Santo Amaro” afirma Caetano, explicando porque se considerava provinciano e tinha dificuldades com se soltar na língua inglesa. E assim Caetano fala enquanto viaja e conhece o mundo, filosofa sobre aspectos de si e das cidades, responde a certas críticas e discorre sobre música, sem medo, como sempre faz na TV ou nos jornais (todos sabem que ele é capaz de fazê-lo).

A construção formal de movimento como oposição cosmopolita/provinciano e esse filosofês de Caetano reforça o cantor mítico, dá mais vazão a este personagem que já é conhecido do grande público, não extrapola a camada que protege o homem provinciano de sua explosão cosmopolita, não expõe além do que se vê ou do que se pode ver, no caso, o Caetano Veloso, músico e compositor. Raros são os momentos em que entramos em contato mais profundo com o ser humano, quando o personagem é observado com menos admiração e sim exposto – talvez só na seqüência em que o cantor tem de comer um doce japonês, que ele confessara não gostar – como quando filma Antonioni assistindo a cena final de Profissão: Repórter, que Caetano confessara gostar, e que com a câmera terna e aberta à sinceridade do momento, permite ao realizador criar um instante de algo perto do sublime em seu filme.

Com Caetano, porém, imprimisse a lenda e algo de interesse e sinceridade se perde nisso. Como diz a letra da música título do filme: “Meu coração vagabundo quer/ guardar o mundo em mim”. No filme, este mundo de Caetano está excessivamente guardado.

Coração Vagabundo (Brasil, 2009), dir. Fernando Grostein Andrade

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