Na Mira do Chefe & Segurando as Pontas

Comédia Exibida

1.

O que se passa com o distribuidor brasileiro para que Na Mira do Chefe e Segurando as Pontas sejam lançados direto em DVD? A covardia dos distribuidores somada à falta de bom senso da maioria dos exibidores traz ao espectador o prejuízo de não ver duas grandes comédias recentes na tela grande. Este é o único – e gigante – sintoma desse cavalo paraguaio que é o mercado exibidor brasileiro, onde filmes com chancela são lançados e obras menores, porém com algo a dizer são alçadas apenas, deslocadas do centro das discussões, principalmente quando o tema é espinhoso ou se o filme não parece se levar a sério. Ou há outra explicação para o sumiço de À Prova de Morte?

2.

O inglês Na Mira do Chefe é uma grata surpresa. Primeiro porque aposta na força do trabalho humano antes da precisão técnica: são as atuações no lugar, os diálogos espertos, as cenas que fogem do lugar comum que se sobressaem. Há uma aposta no naturalismo para reforçar o humano, pessoas comuns, com sentimentos comuns que se envolvem em situações relativamente comuns, o que acaba por se mostrar engraçado por causa de ser sensivelmente humano. Há a influência de Tarantino, porém sem querer se mostrar tarantinesco; as personagens são bem delineadas e trespassam a mera caricatura – tratamento dado geralmente a profissionais do crime em comédias: Brendan Gleeson é um experiente matador melancólico com a beleza da paisagem e história belga, e Colin Farrell é um atormentado jovem no limite de sua existência. Este conflito de vontades humanas gera situações cômicas, diálogos cômicos, um filme cômico fora do comum.

3.

Judd Apatow está produzindo a renovação da comédia americana e fazendo escola com seus filmes. O Virgem de 40 Anos e Superbad são, no mínimo, interessantes exemplares de uma renovação em curso no gênero. Segurando as Pontas é o mais novo filme de sua trupe e mais uma vez trata de um universo fora do politicamente correto: os maconheiros. Ao contrário de Na Mira do Chefe, o cômico vem do extraordinário invade a vida comum – se bem que causado por decisões comuns. Em Segurando… tudo é pensado no exagero e, a partir do momento em que um rapaz comum é jogado no meio da guerra do tráfico, passam a acontecer situações pouco factíveis. O inusitado está em como a vida pode ser patética (em Na Mira do Chefe, tudo é, em certa medida, comum). As comédias produzidas por Apatow trabalham claramente na subversão do imaginário masculino, o mais retratado historicamente na arte. Ele parte de experiências e conflitos masculinos para, a partir daí, discutir o imaginário de armas, machões, mulheres gostosas, sexualidade e experiências da vida social. O homem incapaz de lidar de maneira madura com uma mulher é simbolicamente uma das facetas do do homem apatowniano (O Virgem de 40 Anos); outra é o homem com mais carinho pelo amigo que pela mulher amada (Superbad). As duas facetas se encontram aqui, cobertas de brigas, tiros, perseguições e muita marijuana.

4.

Ver essas duas comédias lançadas diretamente em DVD leva à reflexão de como o mercado brasileiro está se afundando em alguns conceitos conservadores. Um deles é a qualidade técnica – os filmes devem atender a um padrão mínimo de feitura ou parecer atender a este padrão mínimo. Outro é a chancela internacional, seja por bilheteria nos grandes mercados, (razão que vitimou Na Mira do Chefe) ou por festivais importantes para os filmes considerados de arte. Porém, nem tudo que reluz é ouro, especialmente em 35mm.

5.

Há um fator também que tem sido pouco explorado: o politicamente correto. Não há outra razão para explicar o lançamento de Segurando as Pontas do jeito que foi. Ou então a obra-prima de Ben Stiller Trovão Tropical cujo lançamento foi pífio. Drogas, sexo e sangue entraram para a lista negra. O tabu suprimiu a arte. Retroativamente, quanto maior o tabu, mais fácil é atacá-lo, o que pode distorcer o real valor da subversão, perder poder incisivo e virar apenas reativo, o choque por pouco, o corte superficial e não a navalha na carne. Contra isso, assim diria o cineasta: le cinéma, c’est vingt-quatre fois la subversion par seconde.

Na Mira do Chefe (In Bruges, Inglaterra, 2008), dir. Martin McDonagh

Segurando as Pontas (Pineapple Express, EUA, 2008), dir. David Gordon Green

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