Amantes

O homem e o mundo

James Gray é costumeiramente definido como um neoclassicista. Algumas vezes recebe o adjetivo conservador.

Seus filmes se articulam basicamente pela segurança da gramática clássica e vão se encontro com articulações próprias do cinema de um Ford ou Hawks. Daí o neoclassicismo.

O conservador vem dos supostos valores sobre os quais os filmes se movimentam, mais especificamente o valor familiar, os costumes sociais, a integridade do homem.

Há uma análise apressada nessa classificação. Primeiro, é verdade que sua referência vem dos grandes cineastas do cinema clássico, principalmente a tendência em colocar a câmera no nível do olho do homem, de se valer de uma espécie de naturalismo clássico (isso tem um pouco de Hawks, um pouco de Huston).

Entretanto, é interessante notar a total consciência de Gray nesse contato com o classicismo e como este entra na tela para que o jovem realizador americano possa se reposicionar em relação aos valores do cinema clássico e também da sociedade de seu tempo.

Sim, em Os Donos da Noite a família vence frente ao vício, mas isto não tem nada de edificante no caso, já que o protagonista é reprimido no meio da guerra entre o bem e o vício. Ele é uma vítima do não-lugar, da indefinição, que acaba por ficar do lado dos “bons costumes” pelo poder repressor que este tem, assim como o “vício” também pode esmagar as vontades da pessoa. Onde se pode enxergar conservadorismo, há na verdade uma marcação de posição quanto ao homem contemporâneo, que no caso era um mafioso.

Este parágrafo anterior poderia se referir em certa medida a Amantes. A grande diferença é que aqui Leonard é um homem literalmente dividido entre duas possibilidades (metaforicamente representada por sua bipolaridade): as duas mulheres com quem se relaciona ao longo do filme. Uma é a paixão, desejo, o sentimento puro e avassalador, impulso (Michelle); a outra é a convivência, a sociedade, a emoção domesticada ainda que verdadeira, o racional, o conforto (Sandra). É a partir dessa dualidade de pulsões que Gray desenvolve o universo familiar de Leonard, seus problemas interiores, seus impulsos.

Interessante notar como Gray representa essa interioridade de Leonard filmando a maior parte da história no pequeno apartamento da família, cheio de fotos e livros, sempre remetendo à memória, às sensações específicas da personagem. Quando Leonard está com Sandra, há mais espaço, mas também há vigas, espaços labirínticos. Gray faz uma apropriação bem delicada da Nova York mais esquecida, aquela que não aparece nos guias de turismo, o que nos remete ao melhor retrato que esta parte da cidade já recebeu a partir das mãos de Martin Scorsese. As duas cidades se encontram nas personagens, porém por ordens diferentes: em Scorsese manda a memória e o saudosismo do narrador; em Gray, a cidade é uma expressão eu-lírico.

Com sua câmera segura, sem floreios e sua capacidade de criar grandes imagens, Gray vai fundo na alma de Leonard e o transforma em representação do homem atual e suas fragilidades. Através dos dois romances que tomam caminhos imprevistos, entendemos a alma de uma personagem que no fim sublima para revelar a alma do universo masculino contemporâneo. Grey retrata um homem – o gênero masculino – que vive na encruzilhada de uma vida social da qual perdeu controle, revela a fragilidade e pasmaceira da qual este está cheio. Leonard é um espelho em pedaços, um retrato incômodo, mas necessário do homem do novo século, que já não pode se gabar de ser tão seguro e “macho” assim. Leonard é o homem cuja covardia toma cada vez mais espaço, mesmo que ele em algum momento se decida por agir. É um personagem que está mais para o Will Kane, de Matar ou Morrer, do que o Ringo Kid de No Tempo das Diligências. É uma obra de desmistificação e afirmação de outro imaginário masculino, mais distante da segurança, rumo ao desconhecido.

Amantes está para o homem de hoje como os filmes dos anos 60 e 70 que se dedicaram em entender de maneira complexa o universo feminino. Não é, apesar disso, apenas um “filme de menino”. Há também uma atenção à família e seus negócios, ao casamento, e, como já dito, um uso interessante dos espaços. E com este filme James Gray se mostra um cineasta à moda antiga com cabeça progressista, um realizador a se prestar atenção ainda que sua forma de representação esteja na contramão hype do cinema contemporâneo – ou principalmente por causa disso. É um cinema com os pés no chão e o olhar para o mundo.

Amantes (Two Lovers, 2008), dir. James Gray


Anúncios
1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: