A Ressurreição de Adam

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Convenção e Instabilidade

Num ano em que pelos menos dois grandes filmes abordam, em menor ou maior medida, questões judaicas, ambos de maneira pouco convencional – o humor ácido em O Que Resta do Tempo e a vingança contra o Terceiro Reich em Bastardos Inglórios – a aproximação escolhida por Paul Schrader em seu novo filme parece a princípio convencional.

Contudo, não é este o ponto de análise mais importante de A Ressurreição de Adam, ainda que funcione como uma porta de entrada.

Pois, Schrader faz um filme fundado nos efeitos de experiências traumáticas. Seu cenário é interessante por natureza: uma clínica de reabilitação – ou ainda, um manicômio – para refugiados do Holocausto que desenvolveram patologia referente ao trauma de suas vidas. Estamos no terreno da psicologia e efeitos traumáticos.

O roteiro potencializa esse jogo entre o passado e o presente a fim de destrinchar uma experiência psicológica, transitando através de flashbacks pela vida de Adam durante o período da Alemanha nazista, como uma tentativa de complementar seu comportamento presente. Há, portanto, a idéia de juntar peças e mover a narrativa a partir do estado psicológico de Adam, um personagem instável cuja alegria de vida é sombra daquela que tinha antes do campo de concentração.

Esta instabilidade se reflete no ritmo Ressurreição…, porém, esta é de natureza diferente: como a história se mantem apenas no domínio dos efeitos psicológicos, Schrader busca com sua câmera complicar o jogo, revezando-se entre momentos estéticos mais convencionais e naturalistas de câmera estável com outros de câmera na mão e instabilidade. Portanto, tenta refletir o protagonista, mas o faz com uma oposição simplista entre estabilidade/instabilidade da câmera o que, mais que espelhar o comportamento e sensações de Adam, revela uma maneira de olhar este universo que não se arrisca para além do díptico trauma-efeitos.

Ressurreição… se mostra, então, um filme de ritmo desigual e momentos de grande força (quando a câmera, menos que tentar significar, busca realçar as intenções do Adam de Jeff Goldblum) seguidos de momentos ralos. Sobretudo, um filme carente de grandes imagens ou encenação mais interessante e complexa. A bala do canhão de Schrader é apenas o jogo de perde-e-ganha de Adam com seus fantasmas do passado, o que deixa tudo preso no domínio trauma-efeito.

Assim, A Ressurreição de Adam é um filme de sensibilidade engessada, inconstante, fechado a voos audaciosos.

A Ressurreição de Adam (Adam Resurrected, 2008), dir. Paul Schrader

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