Besouro

O Besouro e o Dragão

Não se pode negar que Besouro tem qualidade técnica. Todos os “valores de produção” do filme são de primeira: a reconstituição histórica dos cenários e figurinos, as locações externas, a fotografia cintilante, a trilha sonora recheada de diversos ritmos e principalmente as seqüências de luta.

Estas tem coreografia de Huan-Chiu Ku, que fez Kill Bill e O Tigre e o Dragão. Este último parece ser também o modelo para o filme brasileiro.

Primeiro porque a capoeira aqui é vista sob o mesmo filtro místico que o filme de Ang Lee. Ela é entendida enquanto uma arte de luta que manifesta forças superiores no homem e só é possível pela graça dos deuses.

É feita, então, uma apropriação do imaginário do candomblé e religiões africanas para permear a jornada de Besouro. Há inclusive uma didática seqüência para nomear cada uma das divindades e como elas agem sobre o protagonista.

Besouro é um negro que após a morte de seu mestre pelas forças do coronel da região decide agir contra os maus tratos aos seus pares. Os deuses interferem em sua formação final, quando assume para si a missão da libertação de seu povo. Aprende a voar e a ter consciência social. Tudo pelos deuses ou espíritos dos mortos. Cria-se uma metafísica da consciência social, no caso. Besouro quer insurgir sua comunidade, mas isso só é possível a poderes divinos e não ao homem comum que batalha no dia-a-dia contra a opressão. Só os deuses podem dar o mártir ao povo.

Nesse sentido, Besouro é um herói clássico, no melhor estilo mitológico que o cinema de ação tem propagado. Há um pouco de Matrix, um bocado de Guerra nas Estrelas.

Com esse herói tão clássico que chega a soltar poeira, a dramaturgia tem também a inocência didática de separar os heróis dos bandidos das maneiras mais simples possíveis, fazer com que os obstáculos do protagonista se multipliquem a cada passo que ele dá, coloca seu meu amigo contra ele por causa da mulher e um vilão que não mata, mas manda matar. Beira à prova dos nove da cartilha de Christopher Vogler.

Depois de traçado esse panorama mais estrutural, pode-se dizer que a influência de O Tigre e o Dragão se mostra, ainda, no impulso de construir a conjuntura histórica em razão da dramaturgia deficiente e não explorar dramaticamente o que esta conjuntura pode dar.

Há uma simplificação estetizante, no sentido que todo o desconhecido universo do Recôncavo Baiano do início do século permanece em “descontexto”. Isso acontece porque as personagens são planas e descoladas de seu meio. As belas paisagens não são mais que formas perfeitas num estúdio gigante a que chamamos de mundo. A história se desenrola então de maneira automática, realçada aqui (o que não acontece no filme de Ang Lee) pela câmera incessantemente virtuose de Tikhomiroff, pouco interessada nas transformações de Besouro e da comunidade a qual ele supostamente tenta insurgir, e a montagem que interrompe momentos crescentes de tensão e faz digressões temporais que mais engasgam o ritmo do filme e cansam o espectador, além de pouco eficientes.

Nesta dramaturgia mais canhesta, a construção metafísica do herói é mais pobre que a do filme de Ang Lee. O misticismo é de certa maneira figura chave no imaginário do filme do cineasta taiwanês, enquanto que aqui, o misticismo é figura-chave no mundo e não na dramaturgia, como se fosse problema e solução das coisas. Besouro é o escolhido metafísico, não tem méritos terrenos a não ser deixar seu corpo fazer a capoeira que pode salvar sua comunidade. O poder vem de outra fonte.

É um filme, portanto, que se apropria de um imaginário mais nacional para inserir elementos próprios do gênero de ação, mas realiza uma experiência redutora ao tratar o universo rico baiano – e do imaginário africano em geral – e suas personagens como cenários e bonecos comandados por um ser superior.

Besouro, dir. João Daniel Tikhomiroff

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