Rubem Fonseca 2

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Não consigo me lembrar de muitas adaptações para o cinema da obra de Rubem Fonseca.

Agora só lembro de Lúcia McCartney, de David Neves, A Grande Arte, de Walter Salles e Bufo & Spallanzani, do Tambellini.

Na TV, teve Agosto e, recentemente, a picaretagem Mandrake.

Independentemente, parece que o lado “policial” de Fonseca foi mais aceito pelos realizadores que sua vertente mais “perversa” e, fora isso, apenas o filme de David Neves foi feito na época que Fonseca estava no auge da forma. A geração cinema-novista ignorou Fonseca?

Talvez. O Cinema Novo tinha um projeto que se adequava mais a adaptar obras consolidadas de grandes escritores da literatura brasileira como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Fonseca era ainda recente e talvez longe do projeto de “revelar o Brasil” da turma.

E de fato este impulso do Cinema Novo é diferente de Fonseca em muitos aspectos, mas o principal é quanto à luta de classes.

Enquanto os cinema-novistas entendiam a luta de classes no Brasil como uma batalha a céu aberto entre os abandonados contra os poderosos, o que em geral ia para uma vertente maniqueísta, nos textos de Fonseca a luta de classes quase não existe no primeiro plano: os marginalizados não entendem esse processo histórico que os opõe aos ricos, mas o sentem como algo enraizado. Este chega a ser bestial, como no conto Feliz Ano Novo. Trata-se apenas de um simples assalto a uma mansão durante a festa de ano novo? Claramente há um choque de classes, mas este não está na intelecção e, sim, no subconsciente. A relação entre classes deixou de ser apenas um processo histórico, transformou-se também numa patologia. É uma questão tanto ou talvez mais física e que intelectual.

O exemplo mais didático dentro da obra de Fonseca é o conto Ganhar o Jogo. Nele, um rapaz comum entende a vida como um jogo e resolve “ganhá-lo” assassinando um herdeiro grã-fino que viu exibindo seu iate num programa de TV. Ele não quer ser descoberto, ele não quer virar exemplo; ele deseja a morte do abastado apenas para satisfazer esse impulso subconsciente que, aliás, sua intelecção nega o tempo todo criando uma tese perversa e discutível para justificar-se: ele é alguém que quer apenas ter um saldo na vida (“…uma forma de ganhar o jogo é matar um rico e continuar vivo”).

Glauber embaralhou a visão e deu colorido ao entendimento da classe média em Terra em Transe. Fonseca tem uma visão diversa da luta de classes no Brasil, mais do que a esquerda intelectual gostaria. Sinceramente, não acredito numa verdade sobre o assunto, nem em visão certa ou visão errada. Fonseca apenas coloca uma pimenta (e sangue, sêmen e excremento) no assunto. Teria isso espantado os cineastas nos últimos 30 anos?

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