Woody Diferentes

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A mostra do CCBB com a obra completa de Woody Allen permite tirar um retrato completo da obra, mas também olhar para algumas particularidades.

É o caso de Tiros na Broadway, onde Woody Allen, mais que trabalhar apenas com seus temas, busca outra pegada, talvez a mais dramatúrgica – no sentido mais estrito que drama pode ter. Está longe da classificação “comédia de Woody Allen”, ainda que tenha elementos cômicos próprios de sua obra. A diferença é a busca de um imaginário popular do cinema através dos gangsters, figuras centrais na trama do filme. A câmera de Allen é mais requintada, tem elegância nos movimentos, nos posicionamentos – um olhar voyeur para as cenas –, enfim, uma encenação mais requintada que usual de Allen. Talvez seja Carlo Di Palma, mas não vejo isso em Neblinas e Sombras, por exemplo, cujo trabalho plástico da fotografia aparece muito, mas os esquemas de encenação de Allen não são substancialmente diferentes. Allen, em Tiros…, foge um pouco do plano de conjunto fixo, direto, os diálogos comandando a maior parte das posições dos atores e câmera. Por exemplo os assassinatos de Cheech à beira do rio Hudson com sobre-enquadramentos e uso do fora-de-quadro, da grande profundidade de campo, são diferentes do que se convencionou como uma “direção de Woody Allen”.

Diferente, mas na mesma linha está A Era do Rádio. Aqui ele sai do cinzento universo intelectual novaiorquino e vai ao colorido da memória afetiva. Nesse sentido, há aproximações claras com Amarcord, de Fellini. Aliás, interessante notar como Allen perseguiu Bergman em boa parte de seus filmes e foi melhor sucedido em fazer um filme como Fellini do que como seu ídolo sueco. A Era do Rádio é um filme em esquetes como a fase primeira de Allen, mas aqui tudo parece melhor ligado, um cineasta mais maduro reconstruindo uma memória que, obviamente, não é (e não consegue ser) precisa. Fica a impressão de ser um dos mais pessoais filmes de Allen e talvez aquele com a sensibilidade mais européia dentro de sua obra.

O ponto de ligação entre Tiros na Broadway e A Era do Rádio (assim como A Rosa Púrpura do Cairo) é a busca por formas populares de cultura – o filme de gangster no primeiro, o rádio no segundo. Allen aqui fica próximo de uma alegria juvenil e nos alegra com isso. São filmes mais carinhosos que engraçados propriamente.

Não há aqui um julgamento se isso é melhor do que Woody Allen faz em geral. É diferente apenas. Deve-se reforçar que Allen não apenas faz muitos filmes, também faz filmes diversos entre si, como Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão, Zelig, Hannah e Suas Irmãs, Neblinas e Sombras. Este ponto é o que em geral se esquece quando se fala de Allen.

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