Tropa de Elite

Nesta quinta revi Tropa de Elite na Record e voltou uma velha pergunta: por que parte da intelectualidade brasileira preferiu ignorar a discussão e adotar a posição defensiva de afirmar que se trata de um filme fascista (e, portanto, por que discutir um filme fascista, né)?

Na minha cabeça, está muito claro que o filme não defende as ações do BOPE e ataca um círculo vicioso que se criou em volta das instituições de poder, no caso, policiais. O filme trabalha com uma idéia de sistema e automação, como uma máquina que gira constantemente.

Primeiro, trata de desvendar esse sistema e mostrar como ele é podre. Depois, vê-se a formação daqueles que vão contra o sistema e são “limpos”. Na parte final, os “limpos” se mostram autômatos de uma estrutura maior a qual estão cegos para perceber que, ao agir com violência, são tão sujos quanto os policiais corruptos, o tráfico e a classe média hipócrita (as outras partes desse “sistema”). No “sistema podre” da sociedade carioca todos estão cegos em relação às suas respectivas funções dentro dessa macroestrutura.

A narração do Capitão Nascimento deixa claro isso: tudo o que ele diz é pura repetição. O texto é constituído basicamente por frases prontas, jargões, clichês. É um discurso fabricado e se fosse de outro membro do BOPE teria o mesmo teor. É o universo da automação.

Talvez por isso os melhores momentos do filme estão nas sequências do treinamento. Primeiro, por causa da atuação impressionante de Wagner Moura como Capitão Nascimento. Segundo, porque a formação dos robôs está desnudada. O treinamento do BOPE nada mais é que uma lavagem cerebral. De lá sairão os violentos automatos que entrarão no “sistema”, assumirão sua função de tortura e continuarão fazendo a máquina girar.

Um momento pouco falado é quando Nascimento tem um ataque de raiva contra a esposa. Ela o pressionara, algumas cenas antes, a escolher logo seu substituto no batalhão. Nascimento fraquejava e se pressionava a atender o pedido da esposa. Por isso, tremia, voltava a ser humano. Na cena em que explode contra a esposa, ele quase a agride, esbraveja como se comandasse o batalhão, mostra que é forte, imbatível. Sai da sala e no banheiro vemos que ele não treme. A máquina fala mais alto que o homem.

Tropa de Elite ataca a cegueira geral, a mecanização das funções sociais, o automatismo que mantém essa estrutura social em curto circuito rodando, como parte das pessoas que preferiram classificar o filme ao invés de debatê-lo.

***

Agora, Tropa de Elite claramente não é uma obra-prima, apesar de ser um filme de grande importância. Não é um obra-prima porque há um excesso geral. A câmera se agita excessivamente, treme excessivamente, chicoteia excessivamente, a fotografia ilumina excessivamente, preenche com cores diversas excessivamente, o som é excessivamente cheio o tempo inteiro. É um filme que bate esse excesso na cara do espectador, como para evitar que o espectador pare de ver as cenas e pensar que isso é, no fim das contas, apenas um filme.

Tropa de Elite nunca será uma obra-prima porque se coloca como um filme que joga as imagens-sons no espectador com medo de o espectador perceber que o sangue é vermelho, que o tiro é efeito, que o Capitão Nascimento é Wagner Moura. Será sempre um filme intenso, por vezes divertido, sem dúvida cheio de qualidades, mas não uma obra-prima.

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