O Fantástico Sr. Raposo

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Em sua primeira animação, Wes Anderson parece estar à vontade. Isso porque a história tem muitos elementos com os quais já trabalhara em seus filmes anteriores: personagens esquisitos e neuróticos com problemas familiares e superobjetivos que refletem suas neuroses.

Na verdade, Este …Sr. Raposo guarda mais semelhanças com A Vida Marinha com Stevie Zissou que com qualquer outro de seus trabalhos, pois o protagonista é tão calhorda quanto o Zissou de Bill Murray e, apesar de centrado na família, há uma trupe de esquisitisses que luta contra um antagonista tão presente quanto o personagem de Jeff Goldblum em A Vida Marinha….

Contudo, não se tem a impressão de mais do mesmo. Por quê?

Primeiro porque aqui as personagens possuem uma maluquice própria das fábulas e da animação que ultrapassa a mera estranheza (também presente) que sempre bate cartão nos filmes de Anderson.

Também há a aventura. Ainda que se possa dizer que há uma “aventura” em A Vida Marinha… e Viagem a Darjeeling, elas sempre tinham um caráter essencialmente metafísico, aqui aliviado por peripécias que se desenrolam uma atrás da outra. Anderson parece mais entregue às aventuras em si do que no significado delas.

É este gosto pela aventura que transparece em …Sr. Raposo e se impregna em cada fotograma. A aventura da família de Raposo e seus amigos é recheada de bom humor, acidez e alegria, apesar de todos os conflitos humanos que carrega. Há um prazer pelo desconhecido e pelo perigo, o que, sem dúvida, é contagiante.

Neste terreno do desconhecido, o estilo de Anderson parece caminhar com a segurança de um desbravador. Tudo lembra o retrô sem parecer velho, nem triste, nem saudosista. Pelo contrário: as cores são quentes, vivas, alegres, juvenis. Todos os barroquismos de cenografia e imagem que preenchiam os quadros em seus filmes soam mais naturais que nunca. Suas brincadeiras de direção, como as personagens que “pulam” pela profundidade de campo e os tableaux que remetem a ilustrações de livros, parecem o “sonho de criança” de um diretor realizados.

A passagem entre a inocência juvenil e as responsabilidades da vida familiar que Anderson sempre procurou ele encontra com brilho inédito em …Sr. Raposo, pois consciente de que esta passagem não significa necessariamente perda, castração, apenas uma mudança de postura. A vida continua uma aventura alegre ainda que perigosa e cheia de caminhos tortuosos, como os túneis subterrâneos que Raposo cava para conseguir combater seu adversário.

Numa belíssima cena, Raposo encontra um lobo na beira da estrada e este ao percebê-lo se despede erguendo o punho cerrado no ar. A cena remete a algo análogo em A Vida Marinha…, mas se lá o encontro se voltava mais ao deslumbre, ao maravilhamento, em …Sr. Raposo, o gesto do lobo é a descoberta sóbria de que a vida só pode ser encarada com alegria e bravura, feita dessas pequenezas fantásticas.

O filme poderia muito bem se chamar O Fantástico da Vida com Sr. Raposo.

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1 comentário
  1. Nina disse:

    pena que estreiou com tão poucas cópias e agora só no dvd…

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