Aconteceu em Woodstock (Ang Lee, 09)

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O cinema de Ang Lee nunca me apeteceu, mesmo sabendo que ele não é um mal cineasta.

Não conheço sua obra taiwanesa pré-Hollywood, mas seus filmes americanos são a meu ver demasiado contidos e acadêmicos. Nunca senti que Ang Lee pudesse levar seus temas para além do comum, o que acontece em grande medida em O Tigre e o Dragão e em menor escala em Brokeback Mountain.

Explico: ainda que Lee tenha boas idéias, como o final de Desejo e Perigo, o substancial de seu cinema é bem contido e muitas vezes mecânico. Este mecanicismo é o que me afasta de Brokeback Mountain, já que a idéia de dois fazendeiros gays esconde uma construção acadêmica e quadrada até a alma.

Assim, o que esperar da crônica cômica Aconteceu em Woodstock?

O que ocorre aqui é exatamente o inverso: a idéia é das mais comuns – fazer uma crônica sobre o mais lendário festival de rock de todos os tempos – mas as idéias que regam este universo estão entre as mais bem construídas da carreira de Lee. O realizador leva muito bem esta questão da crônica, mantendo um ritmo leve para o filmea, ainda que patine nas questões familiares de Elliot.

O que interessa são dois os eixos principais do filme: o primeiro é a homossexualidade latente do protagonista. Ela é construída em doses homeopáticas e deixada fácil para o espectador. A câmera parece sentir a sexualidade de Elliot pelo olhar, deixando a dúvida para o espectador que espera o momento da revelação ou não, da decisão de Elliot em revelar-se ou não para a sociedade conservadora que o cerca.

O segundo eixo pelo qual o filme transita é sobre a política do festival. As negociações do festival estão entre as construções mais interessante que Lee faz em sua carreira: os hippies chegam de helicóptero e vão de limusines, acompanhados de perto pelos poderosos de terno que não aparecem no filme, apenas ficam olhando e negociando em segundo plano.

Ao término do festival, o hippie que organiza o festival responde a Elliot após este perguntá-lo “E agora?”: “Nós vamos fazer um festival melhor que esse em São Francisco. E vai ter os Rolling Stones”.

Tudo é negociável, inclusive os momentos emblemáticos de uma época. Os homens de preto estão lá à espreita para saber o que será a nova tendência, seja ela hippie, conservadora, gay ou enrustida. Só interessa o dinheiro, tenha a fachada que tiver.

Não seria essa, quem sabe, a regra na atual Hollywood?

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