A Propósito de Vengeance

image 

Vengeance, filme de Johnnie To lançado no último festival de Cannes, é um bom filme de ação, certeiro para quem admira o cinema policial e de ação vindo de Hong-Kong.

Como era de se esperar, Vengeance não deu as caras por aqui e nem parece que dará.

O curioso é que o primeiro sentimento após o final de Vengeance é que ele serviria muito bem como exemplo para um produto de cinema comercial brasileiro.

Vengeance possui a viga mestra do gênero (no caso, uma história de vingança), mas preenche o filme de detalhes próprios de seu lugar: as ruas com seus letreiros em neon, os apartamento da periferia, a máfia e o poder do submundo local. É uma história de vingança com um mafioso poderoso, capangas e um herói problemático, atormentado por seus problemas internos e que deve cumprir sua vingança. Há um balanço interessante do que é universal ao gênero com o que é “cor local” (ainda que esse conceito seja vago e impreciso muitas vezes).

Há ainda Johnny Hallyday, que ajuda a vender o filme na Europa (entre outras coisas).

***

Não seria difícil pensar numa estratégia parecida para um filme brasileiro. Imagine que Heitor Dhalia ao invés de fazer um drama familiar, chamasse Vincent Cassel para ser um francês que mora há algum tempo por aqui e forma uma família com uma mulher brasileira. Seu cunhado deve para um agiota que, ao se enfurecer pela falta de pagamento, resolve atingir o cara matando seu parente mais próximo, sua irmã, ou seja, mulher de Cassel.

A trama é besta. A questão é que não é impossível tirar um filme interessante que seja comercialmente viável a partir de uma trama considerada batida. Assim é Vengeance.

Sua história é simples: um homem busca vingança pela morte de seu genro e seus netos. Todo o resto vem da capacidade dos roteiristas e dos realizadores de colorir a trama. No caso de Vengeance, o homem em questão é um francês ex-policial que foi aposentado por tomar um tiro na cabeça. A bala continua lá e ele perderá sua memória a qualquer momento. Por isso, ele tem que tirar fotos e fazer lembretes de tudo. Só aí já temos mais trama na história e a possibilidade de realizar cenas interessantes, o que To consegue fazer. Há ainda outras viradas de roteiro (algumas acontecem e se resolvem de maneira muito abrupta, sem apostar em tudo que elas poderiam dar) que permitem aumentar o espectro de interesse.

Ou seja, é uma questão de querer fazer e é possível ser bem feito e ir além do mero filme comercial, ainda que tenha valor de produção para ser rentável. É possível fazer um filme de ação comercial e de qualidade. Primeiro há de se querer. Muita gente vai errar tentando, mas isso talvez seja o de menos.

***

Algo que pode ser discutido é se o público brasileiro se interessaria por esse filme. Como saber se não se faz? Besouro foi um desastre de bilheteria? Talvez sim, mas foi uma primeira tentativa. Não se pode pensar em cinematografia a curto prazo. Só a experiência, o díptico tentativa-erro e a aposta é que podem levar a algum lugar. O que não pode é continuar o monopólio das comédias ao gosto da televisão como única forma de cinema comercialmente viável no Brasil.

Grande parte do público continua ilhado no imaginário hollywoodiano, que inclui o filme de ação repleto de efeitos especiais. Um filme de ação inspirado no cinema de Hong-Kong (que tem hoje em To a figura de maior proeminência) talvez seja uma saída, uma aposta de “substituição de importações”. Hollywood se interessa pouco em fazer filmes como Vengeance; prefere esperar para fazer o remake.

Taí um filão no qual o imaginário norte-americano reinava e deixou uma brecha. Quem sabe não seja bom aproveitar?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: