Invictus (Clint Eastwood, 09)

Tempo de transformação

Momento decisivo da final da Copa do Mundo de Rugby. A luta pela bola que pode decidir o jogo. Câmera lenta, apreensão da torcida. Closes nos rostos dos jogadores que lutam no limite de suas forças pela vitória; rostos amassados no tórax do adversário, braços com veias saltando, olhos esbugalhados, suor, sangue, sons distorcidos que brutalizam e reforçam o esforço sobre-humano da cena.

O que seria uma simples cena dramática em câmera lenta, ganha outra graça na mão de um diretor com domínio da linguagem e suas possibilidades.

Clint Eastwood não é um formalista. Sua câmera é direta, limpa, pronta para mostrar frontalmente o mundo. O diretor americano encara de frente o mundo a seu redor, cria um significado para sua história e não hesita em contá-la. Não faz floreios para isso, apenas conta usando sua segurança com a linguagem audiovisual.

A cena descrita anteriormente não é obra de uma simples esteta, mas de alguém consciente da mensagem a transmitir e com talento para a tarefa.

É por isso que seus filmes são sempre uma experiência enriquecedora e agradável ainda que o tema seja duro ou trágico: Eastwood não aponta o dedo em riste, nem conduz pela mão como se levasse um cego pela rua; seus filmes estão mais para um livro o qual não queremos que termine mas que não se consegue deixar de ler. E, claro, sem menosprezar aquele para quem a história é contada, sem poupá-lo das palavras tristes, oferecendo o prazer dos motes mais alegres.

Invictus, em mãos menos habilidosas, seria apenas um filme de alta política ou um melodrama sobre líderes altivos, se passaria apenas nos salões de palácios e nos bastidores do governo e federações esportivas. Com Clint, o filme é isso, contudo não apenas isso.

Já na primeira seqüência, vemos dois campos de jogo: um gramado bem cuidado onde garotos brancos jogam rugby e, na outra margem de uma rodovia, um terrão onde meninos negros jogam futebol. Uma comitiva passa: é Mandela sendo liberado da prisão. Os dois lados param e assistem, com reações distintas. Há aqui uma promessa da parte do realizador: veremos não apenas Mandela e sua trajetória junto com o time de rugby da África do Sul, como também a reação do país para as transformações em curso.

Porque mais que estabelecer uma relação individual do espectador com Mandela e Pienaar (capitão da seleção de rugby da África do Sul), Eastwood tenta jogar também com o uso dos figurantes, das multidões anônimas que comparecem às partidas de rugby, dos membros menos conhecidos da seleção nacional, dos garotos do gueto que recebem a visita dos atletas, dos correligionários de Mandela que se surpreendem com suas atitudes, dos pais de Pienaar que não aceitam o novo tempo. Eastwood quer captar essa transformação de uma país dividido em uma nação única e, por isso, há várias as cenas em externas que mostram as pessoas nas ruas, nos bares, nas casas reagindo às notícias e aos jogos. É o fator humano (título de trabalho do filme), tão importante em momentos de transformações.

Estas serão dolorosas e irão requerer muito esforço por parte de todos (por isso o rugby é perfeito como metáfora); as reações serão muitas vezes patéticas (função cumprida com perfeição pelas cenas em que seguranças negros e brancos tem de interagir) ou simplesmente fruto do medo (vide os pais de Pienaar e a assessora de Mandela). Eastwood costura esses detalhes para construir sua mensagem que pode-se especular o objetivo de atingir seus co-cidadãos americanos, cada vez mais divididos entre reacionários e liberais. Invictus é um recado sobre a necessidade de se enxergar para além das diferenças aparentes.

A mensagem, como na maioria dos filmes de Eastwood, está clara, mas o que torna suas obras diferenciadas é como ele joga com o assunto, construindo os sentidos da história de maneira firme, elegante e inteligente. Sempre há algo de novo, diferente nas construções, por mais que possamos identificar traços comuns – principalmente a maneira simples de filmar e o olhar atento a momentos ritualísticos. Em Invictus, Eastwood tira dos figurantes e dos coadjuvantes a força que realça a importância das ações de seus protagonistas. Mais que uma história edificante, há uma energia que almeja novas ideias em novos tempos.

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