Nine (Rob Marshall, 09)

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1. Antes de tudo, Nine propõe um desafio para o crítico: como abordá-lo?

Há obviamente a questão de Nine tratar-se de uma adaptação de um musical da Broadway cuja história foi tirada do clássico de Fellini. E seria uma covardia colocar os dois lado-a-lado e partir para a análise do filme de Rob Marshall.

Contudo, “esquecer” a obra-prima de Fellini numa análise de Nine é como ignorar provas numa investigação policial. Se o crítico deve levar em conta o maior número de aspectos (estéticos, políticos, sociais, geográficos, econômicos e por aí vai) numa aproximação com o filme, é inevitável que se coloquem os dois filmes lado a lado, pois parte integrante da experiência de recepção do filme reside no fato de conhecer ou não o filme de Fellini.

É uma covardia fazer isso, não se pode esquecer.

2. O crítico deve, então, se colocar uma outra questão: qual a função de uma crítica cinematográfica?

Com certeza não é informar. Para isso temos as matérias dos cadernos culturais, os sites de divulgação, os press releases.

Não acredito também que seja o caso de preparar o público: a fotografia é linda, os atores são ótimos, a direção é segura, mas o roteiro é fraco. Aqui, a crítica vira um mero menu de aspectos estéticos, o que definitivamente empobrece a experiência do leitor para com o filme.

O crítico não é uma balança de elementos (alguns são, mas não vem ao caso). Em consequência, não é simplesmente um enólogo de filmes que dá dicas do que é bom ou ruim, avaliando retrogostos, ataques e coisas afins para apontar para o público o que vale e o que não vale a pena consumir.

3. A conclusão é que o crítico é uma ponte. O crítico é, antes de tudo, mais um espectador, com um ponto-de-vista próprio. Isso significa um repertório que o faz ver certo filme de tal ou tal maneira.

O que o crítico deve fazer é estabelecer um diálogo entre criadores, público e, também, consigo mesmos. Se exibir um filme significa dar esta obra ao mundo, cabe ao crítico colocar o mundo no filme. Um cinema sem diálogo é um cinema morto.

4. Pensando assim, Nine poderia ser abordado de diversas maneiras, usando diversos de seus aspectos como referência. E talvez em nenhuma delas se deva ignorar o fato de que o filme é uma adaptação de a não ser que o crítico não conheça o filme de Fellini.

Repito: é covardia com Nine. Mas – é preciso lembrar – Rob Marshall adaptou a obra-prima de Fellini e não filme qualquer de Enzo Castellari.

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5. Como proposta de abordagem: qual a aproximação possível de Nine com ?

Nine faz algumas reduções na obra de Fellini. A primeira é transformar a história metalinguística numa história melodramática de amor. Guido Contini não quer se descobrir, não quer fazer filme; quer, no fundo, ficar com sua esposa. As outras mulheres estão lá para mostrá-lo que a mulher de sua vida é Luisa.

A segunda é reduzir os números musicais a meros sonhos, distanciando assim a forma lúdica de Guido ver o mundo. Há uma separação clara entre o que é o “mundo real” e o que é “sonho”. Aqui outro vício de Marshall: quando há um número musical, a ação é transplantada para um palco num dos estúdios de Cinecittà. A narrativa é abruptamente quebrada; o musical se torna um interlúdio para o filme, não flui com a narrativa nem acrescenta novos aspectos sensoriais. São números musicais que prezam pela técnica e pompa. A criatividade é deixada de lado.

6. Essas são, na verdade, as duas vigas mestras em Nine: a eficiência e pompa dos números músicais e o melodrama amoroso da narrativa. Elas visam algo claro: fortalecer valores da indústria hollywoodiana. Guido é lembrado o tempo inteiro de seus fracassos que ninguém entende. Sua imaginação está sem controle, sem limites. Guido deve se controlar, conter sua criatividade em favor do entretenimento e do estilo.

Entretenimento e estilo são os pilares de outro filme de Rob Marshall, Chicago.

Enquanto era uma declaração de amor à arte livre, às mulheres, à vontade de viver, Nine prega o amor melodramático e, principalmente, o estilo aparente como regra. Mas a arte não precisa de regras.

Eis o grande problema de Nine, um filme que segue regras em excesso. Tem que ter pompa, qualidade técnica, atores famosos, luxo; os números musicais devem parecer sonhos em palcos suntuosos, as músicas devem relembrar os bons tempos da era do jazz e dos grandes musicais. Nine tem inúmeros parâmetros e pouca vitalidade. Não é entretenimento, já que não diverte, nem tem verdadeiramente estilo, pois falta criatividade para apontar para o futuro ao invés de ser saudosista com um passado que já foi e não volta mais.

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