Coppola & Coppola

Ainda não entendi o que aconteceu com o lançamento dos últimos dois filmes do Coppola no Brasil (assim como não entendo o sumiço de À Prova de Morte, ainda inédito por aqui).

Tudo bem que claramente Youth Without Youth e Tetro não tem qualquer chance de sucesso de bilheteria nas salas. Independente disso, o circuito de arte de São Paulo lança cada coisa ruim que não compreendo porque os novos filmes de um dos mais importantes diretores dos últimos 40 anos não despertaram o interesse de nenhum distribuidor.

Também sei que os dois filmes são obras de um cineasta muito diferente daquele que fez O Poderoso Chefão e Apocalipse Now. Isso talvez decepcione parte do público, mas a mim foi surpreendente.

Youth Without Youth é um filme estranhíssimo, uma história que parece ecoar em certa medida Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. É um acadêmico octagenário que sofre um acidente e volta a ter 30 anos de idade. Pode ser considerada uma fábula sobre uma segunda vida sem ter clima de fábula. O filme tem um que de europeu, mas parece tem algo de Kurosawa ali, principalmente a simplicidade com que o lado místico da história é tratado. O resultado é desigual, porém reflete um cineasta buscando dizer novas coisas.

Tetro já um filme mais bem acabado, mais encorpado, robusto, bem mais naturalista, talvez mais americano do que de fato Coppola gostaria. Isso fica claro na “Argentina para inglês ver” onde se passa o filme. Ainda assim, todo o jogo de espelhos que permeia a trajetória dos irmãos Tetrocini é muito bem construído. Coppola foge da câmera ao nível dos olhos; os planos são na maioria das vezes picados, usando muito o plongeé, câmeras tortas ou formando angulações esquisitas com os objetos e os espaços. A história de Tetro e Bennie em alguns momentos parece refletir uma angústia do próprio Coppola em se posicionar como um novo artista, matar o pai opressor (o Coppola dos anos 70) e concluir a obra-prima genial que nunca teve lugar por causa dessa opressão.

Não compartilho do entusiasmo do Cahiers du Cinéma com o filme. A revista dedicou a capa de dezembro ao filme e um bom espaço para tratar dele, sempre elogiosamente. Além disso, o filme entrou na lista dos 10 melhores de 2009 segundo a revista francesa.

Ainda que esse entusiasmo talvez seja demasiado, Youth Without Youth e Tetro não são filmes de qualquer um, são visivelmente obras de um realizador inteligente e competente com um olhar em transição ou, melhor ainda, buscando se reposicionar diante do cinema de seu tempo e de sua própria obra.

É por isso que eles deveriam ser lançados. E não entendo porque os distribuidores do circuito de arte não se interessaram.

O caso de Tetro é mais grave. Não só não foi lançado como não deu as caras na Mostra. Por que, já que a Mostra exibe cada lixo travestido de arte cujo único interesse é um olhar diferente de um mundo desconhecido?

E, como eu suspeito, se não é exibido na Mostra, o filme é sumariamente descartado pelos distribuidores do circuito de arte que, acho, pensam nela como um espaço para testar a recepção aos seus produtos (no caso, filme de arte).

Só nos resta torcer para que esses filmes vejam a luz do dia no circuito exibidor.

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