Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 09)

O ponto mais abordado quando se fala de Guerra ao Terror é a questão da guerra retratada como vício.

Esse dado é substancial no filme, mas o que mais chama a atenção é o retrato dos invasores.

Na primeira sequência vemos um grupo de soldados operando um robô no desarme de uma bomba. O lugar é desértico, tem um trilho de trem abandonado, muito entulho na rua, construções mal cuidadas em volta. Depois, um dos soldados tem que ir até a bomba. Ele coloca uma roupa gigante que tira sua mobilidade.

Não acho que seja por acaso que a primeira cena me lembre imagens da exploração espacial. O robô é parecido com aquele que a Nasa usa para explorar Marte; Will quando usa a roupa especial parece um astronauta num planeta desconhecido.

Porque é isso que representa a invasão americana no Iraque em Guerra ao Terror: eles são E.T.s num planeta desconhecido. A população local olha com curiosidade para os soldados em ação, não entendem o que eles dizem, aquilo é uma coisa de outro mundo para o invadido. O invasor não entende nada do invadido. É o astronauta vagando pelo desconhecido.

Fora essa aproximação de imaginário, Guerra ao Terror é um filme bem interessante. A estrutura do filme se parece emular um diário, contando os dias de maneira dura, frontal, câmera na mão, muitos cortes. Tem uma pegada como os Bournes dirigidos por Paul Greengrass. É interessante notar também como Bigelow não é frenética, ela deixa o tempo correr de acordo com a tensão das cenas, como aquela em que os soldados ficam emboscados no meio do deserto e esperam um longo período debaixo do sol até irem embora. Bigelow dá respiros, trabalha bem com o ritmo interno das cenas, não tem pressa em terminá-las.

A guerra de Bigelow é um vício, mas é também uma loucura. Todo mundo tem um que de maluco no exército (como os astronautas que se propõem a viajar ao espaço?), todos tem neuroses que acabam carregando para as batalhas. É esse pandemônio descontrolado que interessa a Bigelow, o invasor que está desnorteado, não sabe o que faz e acaba por projetar no invadido a sua própria loucura. Por essa razão viciam e querem voltar.

Ainda que essa psicanálise possa parecer meio fajuta (e talvez seja mesmo), Guerra ao Terror é, antes de tudo, uma obra com o vigor de um bom filme de ação.

Não é bandeira de nada. É um filme cujo interesse reside nas personagens, destrinchar seus problemas, vontades, desnudá-los, expô-los. Como um diário aberto.

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1 comentário
  1. Angelo (Massaroca) disse:

    o filme ganhou alguns pontos pra mim depois de ter lido seu texto. a metáfora da cena inicial diz muita coisa sobre o filme.

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