Preciosa – Uma História de Esperança (Lee Daniels, 09)

Antes de mergulhar em Preciosa, vamos fazer uma breve digressão sobre a questão do duplo e do simulacro.

É muito fácil confudir o que vem a ser um duplo e um simulacro pois algumas vezes os dois conceitos são usados como sinônimos ou para designar a mesma idéia. A rigor, isso é falso.

O duplo é uma imagem semelhante ao original, uma cópia, um espelhamento. Ainda assim é identificável como diferente, seja por razões aparentes (uma falha na cópia, um sinal no duplo que não existe no original) ou então por questões anteriores à cópia. Um clone é um duplo, pois sabemos de antemão o processo de clonagem. Nesse sentido, a cópia é o resultado físico da duplicagem.

O duplo mais evidente (e menos lembrado) é o espelho. Nele, o mundo-espelho se apresenta à imagem e semelhança do mundo-fenômeno com a diferença de estar invertido em relação ao ponto de vista do observador. Ou seja, num caso abstrato do observador estar dentro de um espelho, a relação se inverteria e se teria a impressão de que o mundo-fenômeno é um duplo do mundo-espelho.

Já o simulacro é uma imagem que não tem relação de semelhança aparente com o mundo-fenômeno, mas sim de funcionalidadade. É o simulador de vôo. Ele não dá a impressão de realidade de voar, mas a sensação de controlar um avião em vôo. O simulacro é uma “visão sem realidade” na definição do dicionário. Um espectro que remete à realidade por via funcional.

Isso dito, é possível entender como a dualidade duplo/simulacro é impregna a narrativa de Preciosa.

Isso porque temos, no início, um simulacro. A história de Precious não é, de cara, algo que se pode encarar como uma impressão de realidade construída, mas sim um simulacro da pior situação imaginável de pobreza, abandono e sofrimento que Daniels pode propôr dentro de uma narrativa melodramática. Precious é, enquanto personagem funcional, a representação do sofrimento extremo que fará o espectador se solidarizar com logo de cara.

Daniels não tenta, a princípio, construir uma impressão de realidade. Ele prefere colocar o espectador numa impressão de tragédia, a personagem já é apresentada com os problemas mais graves expostos: Precious é obesa mórbida, foi estuprada pelo pai, está grávida do segundo filho, sua primeira filha tem síndrome de down, sua mãe (a ótima Mo’Nique) a odeia.

A problematização vem com a intenção de Daniels de, após propôr uma simulação (pessoas, imaginem esta idéia de sofrimento e exclusão extrema), tentar construir e reforçar uma impressão de realidade: tudo é sujo, direto, narrado com uma câmera descritiva e não sensitiva. Daniels tenta disfarçar sua construção de simulacro inicial com construções estéticas de duplo, fingindo que o melodrama trágico e extremo indicado pelo início é na verdade uma história de dor e sofrimentos brutos, duros e secos, como se víssemos um duplo da realidade.

Disso nasce a derrocada de Preciosa. A narrativa caminha através de inserções cada vez mais simuladas dos problemas de Precious: seus davenios com um mundo que não é o seu, a câmera firulenta que tenta criar efeitos dramáticos ao invés de sensações verdadeiras, a narração que simula um diálogo da mente da protagonista com seu espectador. Mas ainda assim, Daniels tenta negar tudo isso e rejeita o desvelamento do espetáculo construído, do melodrama trágico que se faz pouco a pouco. Busca, mais que tudo, mergulhar o espectador nas emoções mais clássicas de desamparo como muitos filmes de situações no gueto já fizeram. No fim das contas, essa contradição deixa o filme disforme e opaco, recheado de construções evidentemente melodramáticas que se rejeitam. Como Precious.

Quando ela se vê no espelho e, ao invés de seu duplo, lá está uma garota branca e magra (um espectro), a idéia do simulacro que quer ser duplo está evidente. Porém, enquanto Precious caminha para a auto-aceitação, Preciosa renega qualquer forma de conciliação com seu espírito primeiro. E nunca se encontra.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: