Amor sem Escalas (Jason Reitman, 09)

Não entendo o que os americanos vêem no cinema de Jason Reitman.

Não é que ele seja um mal diretor. Pelo contrário: vê-se um domínio da técnica e a pulsão de usá-la de modo autoral, não repetir fórmulas da indústria, tenta se posicionar mais próximo do cinema dos Irmãos Coen que de um Marc Forster, por exemplo.

Reitman parece ter “se descoberto” após o sucesso de Juno. Amor sem Escalas repete algumas estruturas de seu filme anterior. Por isso domina um gosto de mais do mesmo durante a projeção.

A fórmula básica começa com os personagens e suas crenças obsessivas sobre como levar a vida. O protagonista vive em aeroportos e aviões, trabalha em demissões de pessoas a mando de patrões covardes, e não gosta de se envolver nem fincar raízes. É, nesse sentido, um desgarrado.

Ele vai conhecer Alex, uma mulher como ele (“me imagine como você, só que com uma vagina”), esperta, linda, bem sucedida, livre. Mas também vai ter que lidar com o extremo oposto, Natalie, uma garota que quer casar, ter filhos, passar o resto de sua vida com alguém, valoriza a família e o lar.

Como em Juno, esse encontro de interesses e filosofias de vida vai levar o protagonista a se confrontar com o “mundo real”. Seus conceitos entram em crise e ele vai ter de aprender a lidar com este mundo, equilibrar-se num novo jeito de levar a vida, dar valor à família, rever seus sentimentos.

É esta história edificante que move a narrativa de Amor sem Escalas. O grande acerto está nas atuações de George Clooney e Vera Farmiga, adicionando ligeiro cinismo e bonvivantismo a seus personagens. São suas presenças de tela que garantem bons momentos a um roteiro que é careta na maior parte do tempo (ainda que não seja necessariamente clássico).

Há, por outro lado, muito mais segurança da câmera de Reitman que em seu filme anterior. O diretor se arrisca na articulação dos planos, criando alguns refrões visuais como que para representar a “rotina sem rotina” de seu protagonista e estruturas menos equilibradas das sequências em comparação ao que se observa em Juno. Como não poderia deixar de ser, Reitman quer se mostrar “independente” e nesse sentido tem alguns cacoetes do cinema independente americano, como a trilha “bonitinha” e uma tentativa de pôr humor dentro do drama.

Em resumo: Amor sem Escalas é, no fundo, uma parábola sobre o equilíbrio a se ter na vida (ou ainda, na arte cinematográfica).

Com isso dito, pode-se entender o que os americanos vêem no cinema de Jason Reitman. Talvez ele tenha o equilíbrio entre o domínio da técnica e a audácia autoral que a indústria espera de um talento que pode vir a ser o operário-do-mês (mas não o padrão), o fazedor de filmes de prestígio que Hollywood tanto gosta. Quem sabe um novo Ron Howard ou Barry Levinson.

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