Os 10 Mais dos anos ‘00

1. Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino, 2009

2. O Hospedeiro, Bong Joon-ho, 2006

3. Marcas da Violência, David Cronenberg, 2005

4. Three Times, Hou Hsiao-Hsien, 2005

5. Sangue Negro, Paul Thomas Anderson, 2007

6. Amantes, James Gray, 2008

7. Superbad – É Hoje, David Gordon Green, 2007

8. Sobre Meninos e Lobos, Clint Eastwood, 2003

9. Mal dos Trópicos, Apichatpong Weerasethakul, 2004

10. Trovão Tropical, Ben Stiller, 2008

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Um Cinema Popular e Cínico

Os anos 2000 foram férteis para as formas mais populares do cinema comercial e também para suas revisões.

Alguns gêneros que pareciam em decadência no fim da última década parecem ter ganho fôlego nos anos 00: o filme de ação, a comédia e o terror.

Se Hollywood continua a produzir fórmulas prontas, ela continua instigando os cineastas ao redor do mundo a repensar o gênero misturando os aspectos mais reconhecíveis da fórmula com ironia e cores locais. Bong Joon-ho é um mestre nesse quesito. Com sua ironia fina no tratamento do gênero e a consciência de que a Coréia do Sul está na periferia da indústria, Joon-ho desconstrói o filme policial em Memórias de um Assassino, o terror em O Hospedeiro, o melodrama em Mother, fazendo implodir as estruturas clássicas a partir de uma ironia hitchcockiana de controle narrativo com um cinismo jovem e impetuoso.

Do outro lado do mundo, Judd Apatow estabeleceu uma renovação na comédia americana. Como produtor, roteirista e diretor, Apatow formou uma trupe criativa que resgatou os ideais da comédia politicamente incorreta dos anos Jimmy Carter e tratou de colocar o despojamento a la John Belushi nos filmes americanos. Quando a comédia americana era dominada pela paródias e comédia românticas, essa trupe colocou o homem comum na tela e passou a discutir o imaginário masculino pelo que ele tem de mais patético. Daí surgiram, com resultados desiguais, O Virgem de 40 Anos, Superbad – É Hoje, Ligeiramente Grávidos, Segurando as Pontas, Ressaca de Amor. Não que sejam filmes de crise, mas aqui o imaginário masculino é, antes de tudo, colocado em discussão. Há nos filmes de Apatow o ideal de que o homem  comum contemporâneo está longe dos heróis centrados, fortes e capazes dos anos 80 e 90. O homem dos anos 00 vive uma crise que beira o patético, ocasionando sua impotência perante a vida.

Essa é a linha mestra de uma filme tão interessante para o cinema americano quanto diferente dos filmes de Apatow: Amantes, de James Gray. Aqui a impotência está impregnada na pele, nos cabelos, no olhar do protagonista. Ele tenta tomar um rumo na vida, fazer escolhas, contudo sua impotência perante elas o tornam um pateta trágico. Enquanto Michael Cera, Seth Green e Steve Carrell encarnam homens que escondem suas fragilidades e tentam ser “machos”, causando o riso, Joaquin Phoenix faz de seu personagem um homem dividido entre o que quer e o que tem de ser. Ele transita entre dois pólos e acaba por não se encontrar em nenhum, conformando-se. Se em Apatow, os homens se descobrem impotentes e aprendem a levar a vida assim, em Amantes a incapacidade de tomar a liderança derruba o protagonista que não pode fazer nada mais que se conformar.

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O cinema americano continua a produzir grandes obras no seio da indústria, como comprovam os filmes de Clint Eastwood e Paul Thomas Anderson. Sobre Meninos e Lobos é o filme de Eastwood com a maior carga de “americanidade”: uma fratura social que envolve personalidades diferentes e tempos diferentes, patologias, crime, traição, amor, ódio. Move-se pelas pulsões. Como o Daniel Plainview de Sangue Negro. São personagens que se reportam a seu tempo e também à história social e cinematográfica dos EUA.

Plainview é uma representação dos falcões, dos negociantes, mercadores que são facetas chaves do empreendedorismo americano. Mas é também uma personagem que se reporta aos fundadores da terra e outros retratos que o cinema americano fez destes. Numa linha evolutiva, Plainview deriva do personagem de James Dean em Assim Caminha a Humanidade e de Bogart em O Tesouro de Sierra Madre.

Já Eastwood cria um filme cujas personagens são jogadas numa trama de suspense para mostrar o caráter mais arbitrário das paixões. Nesse sentido, ele se reporta ao cinema clássico como um todo, cujas personagens se movem por desejos, vontades. Estas são enganadoras e muitas vezes perversas com aquele que deseja.

Sangue Negro e Sobre Meninos e Lobos se encontram na pulsão, nos desejos das personagens, este motor tão caro ao cinema e que produz segredos e mentiras, fortunas e ruínas, cordeiros e lobos, meninos e monstros.

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Um filme que capta a questão dicotômica das pulsões e os monstros que ela produz: Marcas da Violência. Cronenberg traz a monstruosidade para dentro do protagonista. Opera assim ao contrário de Anderson e Eastwood: enquanto os dois mostram o resultado das pulsões que dominam o homem, Cronenberg mostra uma personagem que tenta inibir as pulsões, esconder os resultados já produzidos e centrar-se na vida comum.

Viggo Mortensen encarna um homem que guarda a besta e a encapsula. O perigo é que esta se liberte, pois aí os danos para o particular serão tão devastadores quanto o dano coletivo que o monstro de O Hospedeiro causa.

Há ainda a questão do gênero: ele invade o filme quando o monstro que vive dentro de Mortensen é liberado. Antes, o filme caminha com sugestões de suspense. Em sua parte final, realça o estranhamento de seu ponto de virada da narrativa com a própria transformação do filme em uma obra de gênero, de certa maneira, bastarda.

Esse jogo irônico com o duplo na própria forma espelhando as transformações do protagonista é o que faz de Marcas da Violência um dos grandes filmes da década e a obra-prima de Cronenberg.

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Dois filmes asiáticos parecem alienígenas dentro dessa lista: Three Times e Mal dos Trópicos. Parecem.

Os dois filmes carregam aspectos que comungam entre si e com outros da lista (principalmente os filmes de Cronenberg e Gray).

Tanto no filme de Hsiao-Hsien quanto de Weerasethakul, as personagens são envolvidas pelas estrutura narrativa e esta, por sua vez, espelha o estado das personagens. Por coincidência são duas histórias de amor contadas mais de uma vez.

Hsiao-Hsien conta três histórias de amor para compôr a unicidade do que é o Amor. Não é que temos três possibilidades distanciadas pelo tempo como universos paralelos. Há apenas um amor com infinitas possibilidades, sensações, desenlaces, aproximações e separações. Nesse sentido, é um dos filmes que mais entende o amor no cinema contemporâneo. O diretor taiwanês não se limita a explicar, ele quer contemplar e dar asas à relação do casal. O espectador entra em vôo livre pelas sensações e emoções sem limitar-se ao visível.

Weerasethakul, por outro lado, mostra o amor como uma descoberta de sensações e por isso seu filme é algo que transita entre o mítico e o concreto, o estrutural e o jazzístico, o claro e o escuro, o racional e o emocional, o humano e o animal. O estranhamento que Mal dos Trópicos causa no espectador não vem da mudança narrativa em si, mas sim da virada sensorial causada pelas imagens. Como uma investigação profunda da alma humana, Weerasethakul entra nas camadas mais desconhecidas do sentimento humano e passa do mundo sensível ao mundo mítico, ou melhor, das ideias. Há um platonismo filosófico em certa medida, mas qual amor consegue deixar de ser em algum grau platônico?

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Qual é a grande característica desta lista sobre o cinema dos anos 00? Talvez seja o cinismo. Em diversos níveis e lugares, os filmes possuem todos uma espécie de cinismo narrativo que é desafiador ao espectador e recompensador para aqueles dispostos a ultrapassar o conforto da projeção.

O cinismo está na forma como esses filmes se relacionam com as estruturas narrativas clássicas e com o mundo os quais representam. Todos os dez filmes buscam romper alguns limites, trazer para a frente questões escondidas em suas sociedades, em seu universos imagéticos. E a forma de derrubar muros, no caso, é o cinismo. Seja o cinismo desbocado do rito de passagem de Superbad ou a subversão cínica da narração que Weerasethakul opera, sem aviso, em Mal dos Trópicos. É o não-contentamento com a representação vigente e saídas pouco usuais que fazem este conjunto de filmes conversarem diretamente com seu tempo e seu mundo além de inserir-se num diálogo direto com o cinema precedente.

Três destes filmes encarnam o espírito cínico como orientação das coisas.

Trovão Tropical parece à primeira vista mais um divertimento sem valor. Entretanto, o filme de Stiller ridiculariza diversos clichês do mundo cinematográfico para fazer piadas com o mundo das celebridades, da produção em série do cinema americano e do negócio hollywoodiano, além de parodiar os gêneros cinematográficos: o filme de guerra, ação, o melodrama e o “filme de Oscar”. Resulta daí um filme com consciência de seu lugar no processo histórico e corrosivamente crítico com o atual momento da indústria hollywoodiana.

O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, é o filme contemporâneo que melhor encarna o espírito irônico do trabalho com o gênero cinematográfico. Bong cria uma história de monstro bem ao estilo do filme B de horror embaralhando a sua estrutura de identificação melodramática e de suspense com a inserção de maluquices (o médico americano, a teoria de conspiração) e aspectos de  outros gêneros cinematográficos: ação, melodrama, comédia. Uma salada de referências de gêneros que mantem todas as características do artesanato destes e resultam em algo saborosamento novo, cheio de frescor adolescente, porém com a auto-consciência de um cineasta maduro.

E o filme da década: Bastardos Inglórios. O filme de Tarantino é uma obra que ultrapassa os limites das nacionalidades, das línguas, dos gêneros e das formas dramatúrgicas; se coloca como obra de arte que reflete sobre o mundo, a história, a forma cinematográfica, a dramaturgia, histórias em quadrinhos. Quer abraçar o mundo e entregar-se inteiro a ele.

O cinismo de Tarantino é desafiador, pois ele é o motor ideológico do filme: a história se escreve in loco na tela, possibilidade que só um cinema verdadeiramente livre é capaz de conceber. O diretor americano trabalha com o imaginário popular da 2ª Guerra, do nazismo, do western (os apaches, o sotaque cowboy de Brad Pitt) e do próprio cinema com o auteurisme próprio dos franceses e a cena-chave passada numa sala de exibição. Trabalha em vários níveis culturais, embaralha os signos, promiscuamente apaga as linhas entre alta cultura e imaginário popular, usando o cinismo e a ironia como marreta de obra.

Por uma arte popular, cínica, bastarda e verdadeiramente livre, características próprias dessa arte que busca a altivez das outras, mas é sempre encatadoramente suja, Bastardos Inglórios é o filme da década.

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8 comentários
  1. Angelo (Massaroca) disse:

    Raul, entre o seu deslumbre quase cego por Bastardos Inglórios, supervalorização curiosa por Amantes e polêmica cheia de testosterona com Superbad e Trovão Tropical, você se esqueceu de dois filmes americanos que deveriam estar numa lista de 10 mais de todos os tempos: Cidade dos Sonhos e Steve Zissou.

    O pior é que você sabe disso seu tratante!

  2. marilia fredini disse:

    alem das muitas coisas que eu discordo, tem uma que é simples de dizer: sobre meninos e lobos é de 2003.

    • Angelo (Massaroca) disse:

      e daí Marilia?

    • Raul Arthuso disse:

      Erro corrigido. Valeu!

  3. Pedro Arantes disse:

    Beleza, listas são sempre polemicas. Mas, porra Raul! Além do que o Angelo falou, não tem nenhum filme dos Irmãos Coen aqui. Ta de sacanagem, né? (e Sobre Meninos e Lobos? Se é pra por um do Clint, que seja Gran Torino) Isso só pra ficar no óbvio…

    • Raul Arthuso disse:

      Gran Torino é caso idêntico a Onde os Fracos Não Tem Vez e Zissou. Antes que alguém diga, Tenenbaum também tava na pré-lista. Tinha Fale com Ela, Os Incríveis, Wall-E, Aquele Querido Mês de Agosto, Todo Mundo Quase Morto… Mas eram dez, foi bem pessoal a opção de um por outro. Todos são filmes que significam (ou significaram) muito pra mim nessa década.

  4. Raul Arthuso disse:

    Gente, listas né. É um risco.
    Cidades dos sonhos, Stevie Zissou e Onde os Fracos não tem vez ficaram na pré-lista dos vinte disputando vagas até o minutos finais.
    No fim das contas, uma lista sempre reflete um projeto/pensamento estético. Se eu fizesse uma lista com 20, alguma coisa causaria discórdia também. Numa lista de 100, eu erraria muito a ordem porque não me daria rigor.
    Fora isso é covardia fazer uma lista ampla. Tem que ter peito de botar 10 e encarar os órfãos dos Coen e de Wes Anderson (e ainda os que vão dizer que não tem cinema europeu nem nacional na lista).

  5. brunoamato disse:

    Lista cheia de personalidade, parabéns! Mesmo discordando bastante dela (desses filmes, acho que só Mal dos Trópicos entraria num Top 10 meu)

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