Easy Riders, Raging Bulls

Acabo de ler a tradução do livro de Peter Biskind Easy Riders, Raging Bulls, que no Brasil ganhou o nome de Como A Geração Sexo-Drogas-e-Rock ‘N’ Roll Salvou Hollywood.

Biskind faz essencialmente uma investigação de bastidores sobre a geração que iniciou a fazer filmes no fim dos anos 60 e início dos anos 70, passando por figuras conhecidas na tela mas cuja importância fora dela às vezes se perca: Warren Beatty, Dennis Hopper, Jack Nicholson, os roteiristas Robert Towne, Paul e Leonard Schrader, e os diretores Coppola, Lucas, Arthur Penn, Hal Ashby, Scorsese, Spielberg, Altman (ainda que este seja um pouco mais velho).

O livro tem uma estrutura episódica e reproduz alguns cacoetes ficcionais, princiipalmente há uma tendência do texto a separar o processo em fases, estabelecer marcos importantes de cada uma delas e pontos de virada de toda a história dessa geração.

Esta vontade de apontar ascensão e queda das pessoas serve à tese geral do livro e precisa ser relativizado muitas vezes, afinal é mais uma narrativa sobre um grupo de pessoas dentre outras possíveis narrativas sobre esta fértil época do cinema americano.

Biskind parece defender que esta geração teve uma oportunidade de mudar todo o sistema, mas acabou por destruir a chance reforçando a indústria em torno dos estúdios.

Primeiramente, Hollywood vivia uma crise dos grandes estúdios devido a razões econômicas (o fim dos contratos de longa duração, a quebra dos monopólios de produção, distribuição e exibição) e ao crescente poder da TV. Quando do lançamento de Sem Destino e Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas, uma “Nova Hollywood” (termo de Biskind) parecia emergir, com filme inspirados pelos cinemas novos europeus e plenos poderes dado aos diretores, com o ideal do auteur como norte. Os heróis (ou anti-heróis) da vez eram Warren Beatty e Dennis Hopper, duas figuras polêmicas e diametralmente opostas: Beatty o galã mulherengo que queria ser o cérebro de uma nova era cuja liberdade criativa seria o pilar; Hopper o hippie maloqueiro violento que se achava um autor ao estilo europeu e destruiria os estúdios com filmes antenados num novo tempo.

O ápice do poder dos diretores se dá com O Poderoso Chefão. Coppola se torna o imperador da Nova Hollywood (Biskind estabelece uma relação com Napoleão diversas vezes), mas ao mesmo tempo arma sua implosão: o sucesso de Chefão, dá sustentação para a Paramount ganhar nova força. Os estúdios começam sua reestruturação e com a chegada dos megassucessos Tubarão e Guerra nas Estrelas – por dois diretores que também tinham o ideal autorístico da geração – os estúdios recuperam seu poder sobre os diretores. Quando, no fim da década, os diretores extrapolam orçamentos e fazem filmes com total liberdade que se tornaram fracassos econômicos retumbantes (O Comboio da Morte, Apocalipse Now, 1941, O Portal do Paraíso), o controle criativo lhes é retirado. É o fim da Hollywood dos diretores.

A culpa? Dos próprios diretores que jogaram a chance fora com seus egos gigantes, drogas, relacionamentos amorosos mal resolvidos, traições, brigas e dinheiro. Um verdadeiro coquetel presente em um grande épico de ganância e poder.

O livro tem essa tese fundamental sobre os egos dos diretores. Todas as histórias de bastidores parecem servir ao propósito final. Afinal, se os diretores tiveram tanta gana de fazer filmes artisticamente inovadores para os padrões americanos e depois torraram tudo com brigas, relações de poder e drogas pesadas, como não dizer que a culpa é deles mesmos?

Ainda assim, há um saudosismo com os filmes da primeira metade da década de 70. Biskind reconhece a qualidade dos filmes, mas seu livro está longe de ser um trabalho crítico. É um relato, ou melhor, mais um relato, bem ao estilo da literatura jornalística americana. Inclusive o que há de mais discutível no livro é a interpretação dos filmes feita pelo autor à luz dos fatos posteriores.

“Como O Poderoso Chefão, O Exorcista antevê a iminente revolução maniqueísta da direita, com Reagan resmungando sobre o Império do Mal. Satanás é o mau pai que se muda para a casa da divorciada MacNeil, tomando o lugar do pai-marido ausente. Famílias que rezam unidas permanecem unidas e não tem encontros incovenientes com o diabo.” diz ele sobre o filme de William Friedkin, numa analíse psicanalítica metodologicamente próxima a de Kracauer em De Caligari a Hitler. Biskind vê alguns filmes inclusive como simbologias quanto às relações de poder da Nova Hollywood com os estúdios.

Enfim, o livro de Biskind interessa muito como documento histórico e pode ajudar a elucidar o funcionamento social da indústria em Los Angeles, longe de qualquer realidade fora dos EUA. A fábrica de sonhos descrita por Biskind é uma máquina de desejos tão potentes quanto destruidores.

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1 comentário
  1. Angelo (Massaroca) disse:

    Raul,

    cadê suas críticas? to sentindo falta delas…

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