Frodon Tem Razão – Cegueira e Colonialismo

Hoje vi no supermercado um shampoo chamado Control Queda Therapy.

Um operário da inteligentsia poderia prematuramente pensar: estaríamos tão colonizados pelo american way of life  que não se enxerga o tanto que este país está se americanizando? Afinal, a elite financeira brasileira odeia pensar em Terapia de Controle de Queda, principalmente num xampu.

Contudo, não se pode esquecer que há muitas bombonières e personalités para além dos deliveries. A classe média também quer se sentir nos Champs-Elysées.

Porém, o espaço não é para discussão de linguística e derivados e o mesmo operário da inteligentsia poderia me tomar por arrogante. Não quero que seja o caso.

Pois tudo não passa do espanto causado pelo olhar limitado para a questão da colonização cultural brasileira hoje, principalmente – e aqui essencialmente – no cinema. Concordaremos que a eficiência está se sobrepondo a qualquer outro parâmetro para medir o sucesso de um trabalho artístico.

Mas em geral este é o único elemento sob suspeita. E claro, meus camaradas, que o mercado é o vilão, já que ele culpa, advoga, julga e executa sumariamente como uma entidade divina a qual tememos e respeitamos apesar de seu obscurantismo.

Agora, por que não olhar para o outro lado antes de atravessar a rua?

Ano passado a declaração de Jean-Michel Frodon sobre o que ele acreditava ser a situação do cinema brasileiro gerou reações como há muito não se via em defesa das obras de nossa pátria mãe gentil. A maioria delas veio de meros operários do pensamento (sempre eles), cuja reatividade emotivo-patriótica mostra apenas uma intenção de demarcação de território, como se o oprimido expulsasse o opressor de volta para a terra natal, sem que com isso o xis da questão fosse atacado.

Isso porque essas mesmas pessoas nunca se perguntam sobre estas mesmas opiniões alheias quando o assunto não envolve a pátria-amada-idolatrada-salve-salve. Quem disse que os franceses tem a primazia das opiniões sobre o cânone? E os italianos? Aliás, por que não os brasileiros ou os sauditas?

Obviamente que esse tipo de estabelecimento crítico-intelectual não acontece por acaso e o cânone é algo construído com o tempo, braço armado da tradição que é. O ponto crucial é que a aceitação dos preceitos europeus dominam o pensamento de nossos intelectuais e artistas há algum tempo. Como a colonização dos americanos através de preceitos mercadológicos pode ser nociva à vida artística brasileira, o alinhamento é com a Europa, onde estão os verdadeiros estetas e pensadores. Isto é, na mesma medida, colonização. Só que agora artística e intelectual. Se não nos vendemos, damos nossa graça de bandeja.

O cinema brasileiro talvez seja um grande sintoma disso. De um lado, há os filmes comerciais, acusados de emular fórmulas prontas do cinemão americano. No outro espectro, o cinema de arte tentando fugir disso e, então, emulando o “verdadeiro cinema”.

Enquanto isso, a televisão ocupou o espaço que ambos deixaram vago: a formação do imaginário brasileiro. Depois de formatado, foi domesticado.

E os guerreiros do cinema continuam a esbravejar contra a teledramaturgia, enquanto tentam impôr um imaginário de sensibilidade alinhada com o colonizador menos temido, pois mais astuto e discreto, sedutor sem dúvidas. A Europa e sua tradição artística e intelectual.

O que os diretores do cinema autoral brasileiro tem feito nos últimos trinta anos e com mais força após a Retomada foi jogar na tela uma dramaturgia cinematográfica pretensamente brasileiríssima, livre do colonizador financeiro, mas, no fundo, embrenhada de ideologia, sensibilidade e gosto estético do colonizador cultural vindo do outro lado do Atlântico.

O cinema brasileiro parece um decalque dos aspectos mais manjados do cinema de arte mundial, apreciados pela pedra de toque da inteligentsia européia. Por isso um cinema com aspectos na maioria das vezes sem vida, insípido, alienígena. É um cinema que se sustenta, numa ponta, pela reprodução do imaginário e modus operandi da televisão e, na outra, pelo filtro intelectual do colonizador europeu. Assim, a única possibilidade de reação frente ao imaginário domesticador da TV se encapsulou, se domou por reverência ao bom gosto europeizado.

Frodon não estava errado quando disse que o cinema brasileiro parecia sem a vitalidade, o frescor e o vigor das cinematografias asiáticas (e não só delas). O que lhe faltou foi ver que isto é efeito da dominação do pensamento europeu, que nos é alheio, no cerne do cinema autoral brasileiro. Sua opinião é falha no que há de mais importante: ver as causas. A ele interessa apenas o efeito, pois neste instante ele deixa de ser elemento deflagrador e passa a observador externo. Não deixa de ser uma visão do colonizador, pois parcial. A resposta, contudo, foi mera pirotecnia, desaparecendo após o belo estouro dos fogos.

A culpa não é de Frodon se somos cegos para o que está na cara e impotentes (ou seria, inconscientes?) para reagir.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: