Tulpan (Sergey Dvortsevoy, 08)

Este texto foi escrito durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2008 – portanto mais de um ano e meio atrás. É uma crítica, a meu ver de hoje, menos madura que as feitas ultimamente. Felizmente. Senão, indicaria meu retrocesso como crítico. Como não revi o filme agora em sua estréia, este texto serve para preeencher um hiato sem críticas dos filmes em cartaz e, para mim, como um exercício de autoavaliação exposta ao público.

Saindo do Lugar Comum

A primeira coisa que pensamos, quando ouvimos falar de um filme do Cazaquistão, é no exotismo que o filme retratará. Isso é natural se levarmos em conta que a cultura desse país é praticamente alienígena para nós e que a única maneira de conhecermos algo dela é através das imagens que o cinema, a televisão e a fotografia podem nos proporcionar.

Com isso em mente, conclui-se que ver Tulpan é uma experiência interessante e enriquecedora. Isso porque, o diretor cazaque Sergey Dvortsevoy parece ter consciência dessa expectativa por parte do público e consegue trabalhar num outro registro a partir desse retrato do interior do país. Dvortsevoy opta por utilizar os traços culturais do país como alavanca para os desejos e conflitos das personagens, usa sua câmera documental como forma de captar a interação entre as personagens, que vivem numa cabana no meio da estepe.

O eixo do filme gira em torno de Asa, um ex-marinheiro que procura uma esposa para poder ter seu próprio rebanho, já que, como ainda é solteiro, trabalha para seu intransigente cunhado. A última garota da região é Tulpan e Asa vê nela sua última chance de realizar seu sonho de ter um “rancho”. Apesar de Asa ser o protagonista do filme, é interessante notar como as personagens ao seu redor possuem cada uma características marcantes e desejos próprios que são trabalhados com muito tato pelo diretor. As crianças são um espetáculo à parte: os três sobrinhos de Asa se revezam em momentos que atraem a câmera para si e dão graça e leveza para o filme. Nessa direção, o bom humor com o qual Dvortsevoy trata este universo é louvável: ele não procura tornar as coisas exóticas ou preservar a cultura local de maneira burra; ao invés disso, ele brinca com toda a diferença entre aquele universo e o mundo “externo”, como o quando Boni, amigo de Asa, mostra a foto do príncipe Charles dizendo que é um príncipe americano, ou o garoto que ouve no rádio as notícias do mundo e anota para contá-las para seu pai no fim do dia. Esta naturalidade com a qual o diretor trata suas personagens é a grande força do filme: elas são pessoas comuns vivendo em seu próprio universo. A partir do comum, chega-se ao sublime.

Ao se propor a esse tratamento e partir para as personagens, Dvortsevoy faz um belo filme focado no lado mais humano, captando desejos, anseios, sensações, emoções das personagens e partindo de um universo particular para alçar essas personagens a seres humanos com as mesmas vontades que qualquer outro. Saindo do lugar comum do filme de arte exótico, Dvortsevoy faz de Tulpan um inteligente, sensível e audacioso filme. Exótico enquanto existência, nunca enquanto olhar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: