Ilha do Medo (Martin Scorsese, 10)

Homero à Americana

Em Ilha do Medo, estamos diante de um filme épico-trágica.

Épico porque Scorsese trabalha aqui no terreno dos mitos e das tradições de seu povo, especificamente figuras, conflitos, imagens, luz, sombra e cores do cinema clássico. Scorsese é, mais que um simples narrador, como Homero diante dos mitos populares gregos. Ele arquiteta uma mistura de divindades e ícones que tem como tradição mitológica o classicismo cinematográfico americano.

Desde a abertura do filme, com a trilha pesada sobre um plano geral da ilha fortificada invocando a Xanadu de Cidadão Kane, Scorsese articula uma espécie de acervo mitológico: o filme noir, o detetive durão, a mecânica visual do estúdio, a transferência da culpa hitchcockiana, os traumas da Segunda Guerra, o terror B, a medicina nazista, uma certa psicologia mequetrefe, o cosmos conspirando sobre as personagens bem ao gosto fordiano.

Não que o diretor esteja interessado numa paródia saudosista ou numa homenagem retrô em voga no pós-modernismo. Seu trabalho é o de um mago, ou melhor, um maestro que coleta colorações musicais de sua terra e reúne tudo numa partitura definitiva, capaz de transmitir uma experiência (Benjamin adoraria isso!). Mais que uma homenagem, estamos diante de um compendium do classicismo cinematográfico americano, realizado no seio de uma história sobre um herói de sua nação.

Contudo, estamos no século XXI e Scorsese não é Homero – um fundador – mas sim um filho da nação. O herói desta nação não pode ser Aquiles nem Odisseu. Nem mesmo o Amsterdam de Gangues de Nova York. Teddy Daniels é um detetive atormentado por traumas de guerra, pela morte da esposa, pelo ódio, pela dúvida. Ainda que essas sensações possam provir dos deuses mitológicos, o protagonista de Ilha do Medo é um homem perturbado, efeito de uma série de questões políticas e psicológicas de seu espaço-tempo. Daí o elemento trágico que ronda o filme.

Nesse sentido, Ilha do Medo é o filme-testamento (com ligeiro atraso) da era Bush, na qual as idéias de parceria, inimigo, liberdade, desconfiança foram todas embaralhadas em favor de questões de poder, revelando à nação de heróis que eles são apenas humanos comuns, frágeis e com suas respectivas neuroses.

É desse elemento trágico da era Bush alimentado de mitologia classicista que Ilha do Medo destila a esperança de que um dia a terra do poeta – ou cineasta – possa ser grandiosa, mitológica, uma nação de Hawks, Fords, Langs, Hitchcocks, Wylers, Walshs, um lugar de imaginário artístico apurado, sensações irrestritas e divindidades caminhando entre os homens, longe da dúvida e incerteza do poder terreno dominante. Enfim, um novo Olimpo.

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