As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 10)

Perdoai-os, Senhor! Eles não sabem o que fazem…

O título As Melhores Coisas do Mundo já denuncia de certa maneira a aproximação da realizadora Laís Bodanzky sobre o universo da adolescência. Essa frase, com gosto singelo quando falada por uma das adolescentes que compõe o núcleo principal da trama, denota uma vontade da realizadora de abraçar esse universo por inteiro.

Porém, as melhores coisas não são necessariamente as mais simples. O que se almeja é dar conta da adolescência como um todo, tarefa já dura na vida, quase impossível num filme. O caminho então é selecionar apenas aquilo que caracterizará a adolescência como algo construtivo, o que tornará esses jovens, adultos moral e intelectualmente melhores. Ou seja, ater-se a valores; os melhores valores.

Para isso, As Melhores Coisas do Mundo cria uma mecânica de inclusões e exclusões. O enredo se utiliza de diversos “tipos” que povoam o colégio (o inferno) para então retratá-los, observá-los e, a partir de seu comportamento, julgá-los. Assim, os variados “tipos” adolescentes desfilam pela tela: a loira gostosa, o xavequeiro, a lésbica, os aproveitadores do grêmio escolar, o irmão artista-maníaco-depressivo, a amiga inteligente, a fofoqueira. E quando estas se revelam em toda a sua “adolescência”, Bodanzky opera um julgamento de valor que as exclui ou as inclui na narrativa. O dogma é espalhado em pitadas, usando Mano, o protagonista, como rato de laboratório. Ele será o adolescente que sairá do filme normatizado pela força domadora da câmera. Mano e Deco, seu amigo, ilustram bem esse impulso narrativo julgador.

Mano é um adolescente que se sente reprimido pelo status quo, tem problemas familiares, é introspectivo, observador, emotivo. Ele toca violão, gosta de teatro, leitura, internet e não fica com qualquer garota na balada. Prefere controlar os impulsos, é reflexivo. Há uma melancolia própria dos outsiders. Esta é extravasada quando Mano vira o zuado do colégio; ele se politiza, quer acabar com os preconceitos. Torna-se, na falta de termo melhor, um cara descolado, alguém consciente, inteligente, interessado em arte, equilibrado.

Deco, por outro lado, é um cara engraçado, brincalhão, xavequeiro, quer pegar todo mundo na balada, só pensa em sexo. Há algo de mau caráter nele, próprio dos insiders. Deco age por impulso e muitas vezes de maneira egoísta. Até que comete um erro fatal ao prejudicar o professor mais legal do colégio. Ele é, então, varrido da narrativa, desaparece por completo da câmera na última meia hora, como se seu erro fosse expressão de algo que o adolescente não deve seguir nem repetir. Assim como a loira gostosa que transa com qualquer um e não deve ser exemplo a ninguém (até sua cena de sexo é constrangedoramente insípida. Seria o sexo um mau exemplo?)

Contudo, Mano também erra, faz besteira, pois isso é ser adolescente. A diferença entre Mano e Deco é que enquanto o primeiro é o eixo no qual gira a narrativa, o segundo é apenas um boneco servindo ao interesses da realizadora, não tem profundidade, antecedentes, emoções. Deco é a periferia, o limite, a pulsão; Mano é o centro, a razão.

Ora, não seria a adolescência caracterizada exatamente como a idade em que nossas percepções e emoções estão testando seus limites, o momento no qual as transformações do corpo e da psicologia do jovem são tão intensas que a coisa mais corriqueira é o erro, o excesso, o limite (e a quebra deles)? Assim, não seria Deco o adolescente em essência enquanto Mano seria, nesse caso, a projeção do realizador sobre a juventude?

Nesse sentido, As Melhores Coisas do Mundo é um filme de centro, de equilíbrio, de normatização, ou melhor, de doutrinação: enquadrar a adolescência em valores, os melhores valores da vida.

O que parecia um filme em busca de incluir as diferenças e entender o universo jovem, na verdade se mostra uma obra de exclusão do que é impulso, excesso, quebra de limites, um filme de olhar ceifador para as formas de agir que não aquelas que reflitam as idéias do realizador. É um filme sobre o adulto olhando o jovem e não de compreensão do que é ser jovem.

O realizador-adulto não está receptivo a descobertas pulsantes – razão de ser da adolescência.

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