Os Famosos e os Duendes da Morte (Esmir Filho, 10)

7 Proposições sobre Os Famosos e os Duendes da Morte

Proposição 1: Adolescência vazia – Os Famosos e os Duendes da Morte se baseiam no nada, num vazio existencial materializado na figura do protagonista. Ele é reflexivo, impotente, esvaziado. Não acredita ter vida (no sentido mais burguês?); falta-lhe algo. Daí o vazio.

Proposição 2: O cosmos opressor – Há um cosmos que oprime o protagonista: as sombras que invadem seu rosto no momento de descontração com seu amigo; as estrelas que o comprimem na tela; os sons da geladeira, do trem, dos insetos, as corrente elétrica que crescem e explodem inadvertidamente; a bruma, o vento, as árvores retorcidas, o vapor do chuveiro que embaça a vista.

Proposição 3: Esse cosmos é meu! – Contudo, este cosmos não é fordiano, espelho orgânico das ações e sensações de suas personagens. O deserto quente e vermelho de Rastros de Ódio é a interioridade de Ethan amplificada. Há uma naturalidade que coloca o personagem dentro desse cosmos. Há significação, beleza, organicidade, espelhamento. Em Os Famosos… o cosmos é criação pura e direta do realizador, o ser todo-poderoso do audiovisual que cria um conjunto de regras visando um ideal de beleza alheio ao diegético. Por que um personagem quando se pode ter um diretor de cinema?

Proposição 4: Criador x Criatura – Há um embate entre o protagonista e esse cosmos opressor. O personagem é comprimido, jogado mais fundo em seu vazio. Os delírios estéticos do realizador-demiurgo afundam o protagonista que se debate na narrativa.

Proposição 5: Sensações profundas – Por que esse embate? A rigor, o vazio existencial do protagonista é só isso: um vazio. De idéias, de sensações. De quem? Do próprio Esmir Filho. O embate serve ao realizador como caminho a alcançar as sensações profundas que tanto almeja. Não bastam sensações reais, elas devem ser profundas. Daí esse cosmos construído que ao bater no protagonista, cria uma pretensa profundidade. É uma profundidade de boutique, bela, sem duvida, mas essencialmente falsa. Exemplo claro é o plano do gira-gira: o brinquedo gira para um lado, a câmera – do ponto de vista de deus – gira para o outro, o personagem se joga fazendo um gesto ambíguo de liberdade. É um plano lindo, mas não diz absolutamente nada. É um conjunto de vazios que serve a um ideal de beleza. Como se o cinema narrativo por si só fosse algo impuro, chulo, menor, bastardo. Cinema é carne e sangue. Essas “sensações profundas”, no caso, são perfumaria.

Proposição 6: A morte – Em sua crítica sobre As Melhores Coisas do Mundo, Luiz Carlos Oliveira Jr. diz: “Um dos pontos de conflito do cinema adolescente, aliás, se dá quando a ausência dos pais é preenchida por outras instâncias castradoras – o professor, a polícia, a Lei. Instâncias que poderão ser vencidas ou não, mas em todo caso serão enfrentadas. Um bom filme adolescente precisa ser, em alguma medida, um culto à rebeldia.” Pois, em Os Famosos…, tudo leva a crer que o vazio existencial do protagonista é resultado da ausência das instituições: a família, a escola repressora, a sociedade moralista. As pessoas se matam na ponte da cidade porque o vazio é resultado da não-existência nesse “cu do mundo”. O personagem quer, antes de tudo, ordem. O protagonista de Os Famosos e os Duendes da Morte compartilha genes com o personagem de Fiuk em As Melhores Coisas do Mundo: os dois vivem um vazio decorrente da falta de ordem e se expressam através da arte (os dois tem blogs onde escrevem textos poéticos de gosto duvidoso – ou poema-bobagem – cujo tema principal é a falta de regulação de seus mundos). Os dois acham na morte uma forma de preencher o vazio. O estarrecedor é que dois filmes com propostas e aproximações tão diferentes cheguem a fins semelhantes: o jovem se sente vazio quando a ordem é quebrada; a morte é o restabelecimento dela.

Proposição 7: O Ocaso – Não chega a surpreender. Por trás da pompa, Os Famosos e os Duendes da Morte é um filme da ordem, porém no enquanto As Melhores Coisas do Mundo busca ordem na diegese, o filme de Esmir Filho persegue a ordem a partir de seu empostado ideal de beleza, seguindo a cartilha que deslumbra os curadores e jurados de festival. No fundo, é apenas uma cartilha. Essa falta de rebeldia dos jovens na tela é apenas reflexo dos cineastas que seguem a rigor as tais cartilhas.

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