Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen, 09)

Coisas Simples da Vida

Apesar da eterna acusação de sempre fazer os mesmos filmes, Woody Allen viveu muitas fases. E agora ele está numa, no mínimo, interessante. Ele adquiriu um despojamento peculiar dentro de sua filmografia, não por parecer descuidado com a encenação ou com a beleza plástica da imagem. Obviamente que não é um trabalho requintado como os dos filmes fotografados por Gordon Willis ou Carlo di Palma, nos quais o rigor americano do primeiro encontrava-se vertiginosamente amalgamado com a Nova York-personagem dos filmes do final dos anos 70, e a sensibilidade das formas e cores européias da iluminação do fotógrafo italiano realçavam o olhar mais auteur do Allen dos anos 80.

O que acontece em Tudo Pode Dar Certo e se reflete em seus últimos filmes é uma vontade de abandonar os temas e partir para a narração como nunca. Seus filmes sempre seguiram uma linha paródica que revisitava grandes obras da cultura ocidental como Fellini (Memórias, Era do Rádio), Tchekov (Hannah e Suas Irmãs), Kafka (Neblinas e Sombras), Molière (A Rosa Púrpura do Cairo), Dostoievski (Crimes e Pecados) entre outras referências sempre claras de início, porém que se impregnavam pelas cenas, tornando cada fotograma de seus filmes um ponto de aproximação com esse cânone. Pelo menos desde Igual a Tudo na Vida, Allen deixa as referências escancaradas, como uma carta de intenções pouco confiável, para então se dedicar apenas ao universo imaginado por ele.

Logo no início deste novo filme, Boris se dirige ao espectador e entrega todo o jogo: suas idéias, sua personalidade, suas crenças. Isso pode soar como um estratagema fácil de identificação, contudo a idéia é satisfazer – meio às avessas – aqueles que querem mais profundidade em suas histórias, já que Allen parece mais interessado no jogo de encontros e desencontros entre personagens dentro de suas narrativas. A casualidade da vida é fruto das vontades das personagens que nunca são – nem serão – iguais. Daí surgem personagens que transitam entre o chulo, como Melody, e o erudito, como Boris, entre o conservador e o descolado, entre o belo e o feio, entre o atrapalhado e sério.

O personagem de Larry David, talvez o grande caldeirão de oposições de Tudo Pode Dar Certo (mesmo que tente parecer um cara extremamente coeso), é o parente próximo do personagem de Woody Allen em Igual a Tudo na Vida. Nos dois há uma repressão do gosto pelas coisas simples e a desesperança com a humanidade – que sempre marcou as grandes obras de Allen. Dessas duas frustrações surge o riso: o diretor tira dela o que há de mais banal, ridículo e engraçado. Tanto Allen lá quanto David aqui são apenas dois velhos rabugentos e coitados lutando por sobrevivência, como as pessoas comuns que eles tanto odeiam e que não tem esse discurso cheio de estofo intelectual.

Menos pretensioso no melhor dos sentidos, Allen faz em Tudo Pode Dar Certo um filme preocupado em desvelar suas personagens. No fundo, há o impulso de livrar o filme desse estofo intelectual banalizado para inserir as personagens no mundo. O mundo não serve a teorias, mas se torna muito engraçado quando um diretor talentoso se deleita em narrá-lo pura e simplesmente, exagerando seu lado mais ridículo.

Afinal, a vida é apenas uma sucessão de simples desencontros.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: