Elephant (Alan Clarke, 1989)

Negações

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche defendia que Sócrates foi um dos grandes males da filosofia ocidental ao criar uma metafísica tão ou mais potente que a metafísica platônica: a razão. Em Nietzsche, a supervalorização do racional inibia os valores artísticos e criativos ao tentar explicar toda a mecânica do mundo. Ou seja, a racionalidade tornava-se razão de ser e castrava o sonho e a pulsão artística.

Assim se encontra em parte a crítica contemporânea, pelo menos aquela que predomina nos grandes veículos de imprensa, na academia, em algumas revistas eletrônicas.

A onda é buscar paralelos, fazer aproximações dos filmes com estudos sociológicos, antropológicos, lingüísticos, políticos, históricos ou então com clássicos do cinema e obras de arte da cultura ocidental, como se o filme precisasse de um lastro alheio para lhe dar valor.

Todo esse choro inicial para colocar em questão a dificuldade desse tipo de olhar para um filme como Elephant, de Alan Clarke.

Primeiro porque o filme se nega a enquadrar-se sob qualquer forma de metafísica, seja ela um mundo de idéias religiosas ou de ideais artísticos e plásticos da historiografia oficial. Segundo porque nega radicalmente ser explicado à luz de qualquer ciência acadêmica como a sociologia, a psicologia, a antropologia, a história. É uma negação das metafísicas num certo sentido.

Elephant é, antes de tudo, um filme sobre o aqui e agora, uma experiência, não no sentido de buscar extrapolar os limites da linguagem e as capacidades oferecidas pelo aparato (ainda que o faça de certa maneira com o uso da steadycam); mas no modo como busca transmitir ao espectador um conjunto de idéias e sensações baseado no corpo-a-corpo.

A figura do narrador é parte fundamental nisso. Ele se posiciona sempre muito próximo da ação, acompanhando as pessoas, percorrendo os espaços vazios e, às vezes, tortuosos e as ruas, observando as ações como um curioso voyeur. Há, entretanto, uma angústia nesse narrador. Ele parece abismado quando os crimes acontecem: a câmera dá uma atenção especial às armas em planos detalhes e aos corpos inertes com os planos fixos destes finalizando as cenas. Há um procedimento que se torna mais e mais sufocante. O narrador vira uma espécie de inimigo íntimo daquilo que narra e transmite a sensação de angústia a seu espectador. Assim, a violência transita do racional para o físico, causando efeitos patológicos, atingindo diretamente as sensações.

O espectador primeiramente sofre um estranhamento, já que o norte comum do cinema narrativo – protagonista, antagonista, objetivo, progressão dramática – lhe é retirado. Depois, a repetição do procedimento por parte do narrador transmite a sensação sufocante. O espectador não pode simplesmente passar alheio a estas cenas violentas que se repetem ad infinitum. Clarke transforma, por sua escolha narrativa, uma questão cuja tendência é ser tratada como coisa alheia, principalmente à luz das ciências sociais, em questão particular. Como ninguém tem nome, endereço nem torce para nenhum time de futebol, tanto aquele que tem o poder de atirar quanto o que apenas deve morrer podem ser qualquer um de nós. Ao transferir o peso de sua narrativa da razão para a sensação, Clarke pede o posicionamento do espectador, já que ele é parte integrante dessa experiência.

A cena final, a princípio enigmática, parece delinear a questão. Dois homens andam em um galpão vazio enquanto a câmera-narrador os acompanha. Eles encontram um terceiro homem e um dos primeiros se entrega passivamente a este que será seu carrasco. A câmera fica de longe, meio que constrangida por tanta passividade. Depois do tiro fatal, este é o único corpo que não vemos morto, apenas seu sangue borrando a parede. Não seria esta vítima a platéia passiva frente ao que vê? Este final é uma cutucada do narrador em seu ouvinte, como quem implora uma ação, já que a passividade frente a toda essa questão só pode resultar no devir. Ele chama, após a experiência sensorial de Elephant, o espectador a não permitir que a repetição se perpetue: é necessário posicionar-se frente ao mundo – e ao próprio filme.

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