O mundo, a mulher, a arte e o crítico

A minha mãe diz para mim desde a infância “você é muito crítico!”. À parte a importante participação dela nessa característica marcante da minha personalidade, a afirmação dela revela um tipo de olhar do senso comum para os críticos: eles são todos uns chatos reclamando das coisas.

O que ela não percebeu é que essa mesma afirmação define uma parte importante do que representa ser crítico. Quando ela afirma que eu sou “muito crítico”, entra em jogo a questão de que a tal “chatice” é a inquietação com as coisas do mundo. E alguém só pode se inquietar com algo cuja importância para essa pessoa é significativa. Ou seja, minha mãe por vias tortas estabeleceu a relação do crítico com o mundo: a paixão. A paixão é esta importância que incomoda, mas tira a pessoal de seu torpor e o coloca num estado de necessidade de externalizá-la.

Se o cinema fosse uma mulher, a relação do crítico é como amá-la, num certo sentido. Primeiro você se aproxima, tenta estabelecer uma relação agradável identificando tudo aquilo que o agrada nesse contato inicial, até que surge uma paixão avassaladora que o impele para o desejo de estar sempre com a mulher amada. Em seguida, o relacionamento fica íntimo e aí a paixão inicial se arrefece, os defeitos dela ficam evidentes, você começa a conhecer a fundo todas as facetas – boas e ruins – de seu amor. Inicia-se, então, a busca por aquela paixão inicial, pelas coisas que despertaram o amor, a vontade de reviver aquele fogo. Isso pode levar a relação ao fim ou ao casamento. Independente disso, essa paixão é marcante, deixa feridas, alegrias, transforma a pessoa a ponto de mudar sua relação com as coisas do mundo e até com o próprio jeito de encarar a paixão em si.

Encarando o cinema por esse ponto de vista, não é possível afirmar que os críticos hoje, em geral, não entendem nada de mulher? E no Brasil então: o que dizer deles?

Se se pedisse a eles para que descrevessem a mulher amada, uns diriam que é bonita, mas sem conteúdo; outros diriam que há uma beleza interior que supera qualquer déficit estético aparente; teria ainda coisas como “ela consegue misturar Freud, Vermeer e Válery na mesma fala”, “minha amada tem piadas muito boas; é diversão na certa”, “minha mulher é a mais bela imagem já feita em muitos anos”, “depois de muita inconsistência, ela conseguiu alcançar um nível intelectual incomparável”, “ela remete a Antonioni e Renoir sem perder de vista sua preferência por Welles” ou ainda “divertida! Recomendo!”. É possível para chamar isso de amor verdadeiro?

Eu, sobre esta mulher, diria simplesmente “eu a amo porque ela me faz bem”. E por que me faz bem? Não sei exatamente, mas sei que é assim.

O diferencial do crítico é que ele procura balancear sua paixão para entender todo o processo. A diferença do bom crítico para o mau crítico é que enquanto este tenta reduzir sua paixão a palavras, o bom crítico tenta transcender a palavra com a paixão.

Antes que este texto dê a má impressão de que o crítico é um tarado (e pode até ser) e que sua paixão tem cunho sexual, é preciso pensar o que faz com que um bom crítico exista. A paixão por si só não basta, como atesta grande parte da crítica contemporânea.

É necessário ter visão de mundo.

A visão de mundo é algo impalpável e indefinível. É pessoal, mas coletiva; poética, mas prosaica; grave, porém divertida; intelectual, mas emotiva. É resultado de uma vivência, de um conjunto de tentativas e erros que desembocam num jeito particular de olhar para as coisas. Existem questões de classe social, ambiente de socialização e biológicas do próprio corpo que influem, é óbvio. Porém, não é algo determinista, nem pode ser mesurado com muito rigor.

Uma palavra já utilizada pode ser a pedra filosofal da questão: vivência.

No delicioso texto sobre a crítica “Cinema: música da luz”, Jairo Ferreira define o seguinte: “a formação do crítico não deve se limitar a cinema, mas passar simultaneamente pela leitura dos clássicos, de gibis, de ocultismo, tudo de pintura/arquitetura/teatro, jornalismo, rádio, TV, circo, ciência, astrologia, sem esquecer a filosofia, a sociologia, mas com especial destaque à poesia e à música – tudo devidamente vivenciado.”

Ou seja, não adianta ficar em casa vendo filme e lendo todas as críticas do Bazin. O negócio é sair na rua, ver as pessoas, no fundo, entender o que motiva as pessoas a transporem o mundo em poesia, pintura, teatro, música. Ver, ouvir e cheirar o mundo. Sentir o gosto do torresmo com uma cerveja gelada acompanhado dos amigos. Saborear as coisas como algo único. Enfim, abandonar com sopro de vida a tendência a teorizar e enquadrar as coisas do mundo. O crítico deve olhar essas coisas com sabor e não com um livro do Marx na cabeça. As teorias estão aí como referência e não como essência elas mesmas. A essência está lá fora.

Neste ponto o crítico de cinema tem uma aproximação com outra pessoa importante do jogo: o cineasta. Tanto um quanto outro devem ter essa vivência, a tal da visão de mundo. A diferença é que o cineasta se expressa recriando as sensações do mundo através da obra enquanto que o crítico usa a obra como ponte entre as sensações – dele principalmente – e o mundo.

Não deveria haver o julgamento de valor tão corriqueiro entre artistas e críticos, como se os primeiros fossem “deuses dos valores sensíveis” e os segundos “destruidores dos prazeres terrenos”. O autor transforma as coisas do mundo em arte; o crítico transforma a arte em coisa do mundo. Eles são mais próximos do que se imagina, pois um necessita do outro para alimentar a fome dessa paixão. E no fim das contas, os dois querem engrandecer a vida.

De nada vale tudo isso se não houver visão de mundo, se não houver vivência. O que queremos tanto de um bom filme quanto de uma boa crítica é um pouco de vida, de coisas que nos lembrem seu sabor, sua prática, suas emoções, em resumo, queremos reviver o viver. Uma boa crítica e um bom filme são capazes de realizar isso que, a princípio, soa irrealizável. A paixão, balanceada com uma experiência de vida singular, é capaz de coisas inimagináveis, inclusive as mais simples e deliciosas, como um filme inesquecível e uma crítica que consiga levar seu leitor de volta para essas sensações inesquecíveis. Reviver o viver.

Em resumo: como dizer que se ama uma mulher, se ela está apenas num pôster no miolo de uma revista masculina?

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2 comentários
  1. Flavia disse:

    raul, um dos seus melhores!

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