McKee tem razão?

Vamos aproveitar a visita de Robert McKee e falar de roteiro.

O Sr. McKee é um defensor implacável dos roteiristas como não poderia deixar de ser, afinal são seus clientes, ou melhor, o objetivo final de seus clientes é tornarem-se roteiristas.

Para McKee, o problema do cinema brasileiro é a falta de roteiros originais, ou seja, a culpa está nos roteiristas. Isso ofende muita gente, pois “quem esse americaninho pensa que é para meter o bedelho por aqui?” Apesar da possível ofensa que isso possa ser (não para mim), está na crista da onda falar que o problema dos filmes brasileiros são os roteiros. Seriam apenas os roteiristas (ou a falta deles) os culpados?

Um filme interessante para o caso é Caos Calmo. Entre os seus roteiristas está Nanni Moretti, um grande nome do “cinema sério” dos festivais internacionais. Uma chancela nunca faz mal a ninguém e talvez sem esse “grande nome” Caos Calmo não chamasse a atenção.

O enredo do filme dá pano para a manga: a esposa de um executivo de meia idade sofre um acidente e morre. Como se reage à dor da perda da amada?

O tema sério é tratado com carinho, suavidade, o filme tenta ser o que se convencionou chamar de “tocante” na falta de um termo que expresse melhor a graça leve que gira ao redor de um tema grave.

Contudo, o filme se dispersa no deslumbre por essas “graças”. Pietro resolve passar seus dias numa praça em frente ao colégio de sua filha, rodeado de personagens comuns que repetem as mesmas ações dia após dia. Há várias situações de encontros envolvendo essa praça, as pessoas que chegam para conversar com Pietro e as mães de colegas da filha do cara. O deslumbre por essas situações é tratado de maneira “fofa”, “bonitinha”, “moderninha”: a música nunca combina perfeitamente com as cenas, alguns planos são virtuoses demais para momentos singelos e, no fundo, as situações são mais reconfortantes que singelas. Ou seja, é um filme que busca ser mais impactante que envolvente. No fundo, é um filme sem muita coisa a dizer.

Em quem colocar essa culpa?

Quando o roteirista é Moretti a culpa obviamente recairá sobre o diretor, alguém com menos pedigree. E a culpa me parece ser dele mesmo.

O problema é quando se pensa que a culpa é do roteirista quando se trata de um filme mediano de um diretor famoso. Ou pior, quando o mérito de um bom filme de um diretor desconhecido está no roteirista “qualificado”.

Isso porque um roteiro é apenas um roteiro. Sua importância termina na filmagem. Uma câmera não filma Courrier New tamanho 12. Eis o erro do McKee. Na verdade, erro nosso. Ele defende sua categoria, como os metalúrgicos defendem a sua, os motoristas de ônibus e patrões as deles. Estamos caindo na falácia da categorização para achar um culpado para os problemas do cinema em geral.

Como não sou corintiano, divido o pão da santa ceia: o roteiro pode ser um dos problemas do cinema brasileiro, mas é besteira pensar que ele é o único.

Diretores devem ter visão de mundo, ter o que dizer e saber como dizê-lo. Quando lêem um roteiro e decidem filmar, de duas uma: ou acreditam na qualidade daquele material ou estão famintos a ponto de cegar a inteligência.

Enquanto se diz que os roteiristas são os culpados, os produtores se eximem de sua responsabilidade de procurar bons roteiros ou bons profissionais, além de financiamento para que a inteligência não seja cegada pela fome de filmar, e os diretores agradecem confortavelmente observando a transferência da culpa numa possível discussão (que não ocorrerá).

Afinal, quando o próximo As Melhores Coisas do Mundo sair, a culpa recairá invariavelmente sobre os ombros do pobre roteirista.

Caos Calmo (Antonello Grimaldi, 08)

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