O Rei do Baralho (Júlio Bressane, 73)

O GOSTO DE FILMAR

Se existe um cineasta brasileiro com uma reputação controversa o bastante para ser discutida regularmente nas mesas de debate – e de bar também – este alguém é Júlio Bressane.

Graças ao nosso desejo de classificação das coisas, Bressane é sempre taxado de experimental e marginal, além de enfrentar comparações eternas com Rogério Sganzerla.

Convenhamos que não é justo nem fácil sobreviver a uma comparação com O Bandido da Luz Vermelha, um dos mais importantes e influentes filmes brasileiros de todos os tempos. Mas, a comparação, fora o que o cânone chama de “marginal”, parece descabida: enquanto em Sganzerla tudo é superlativo, Bressane joga no terreno das pequenas coisas, do samba, do “carioquês”.

O Rei do Baralho é um exemplo claro desse jogo. Ele é, sem medo de errar ou parecer injusto, um filme pequeno, pois se faz coisas pequenas: momentos pequenos, situações pequenas, cenários pequenos, até Grande Otelo é pequeno.

O diferencial aqui (e isso não é nem pequeno nem trivial) é que o filme está impregnado pelo gosto de filmar.

Bressane parece interessado em rechear a narrativa com esse sabor pela câmera ligada, por incorporar a ela elementos que compuseram o processo de filmagem: retoma takes repetidos, erros dos atores, momentos anteriores ao “ação” do diretor, a preparação dos atores se vestindo para incorporar as personagens. É uma metalinguagem que sai do nível do enredo e entra na forma do filme.

Há um desejo intenso de abraçar os erros. Como um jogador de cartas, o diretor trabalha com o material para compor um filme possível dentre todos os filmes possíveis que ele poderia filmar e montar. Se a vida se faz de tentativa e erro, Bressane em O Rei do Baralho busca trazer a vida para sua ficção, criando no próprio enredo pontos de encontro entre um e outro (o Rei do baralho, por exemplo, tem problemas de alcoolismo assim como o ator que o representa).

A vontade de incorporar o mundo, expondo o próprio fazer e jogando com erros e acertos, com o que vale e o que não vale, é o que dá imensa vitalidade a este conjunto de pequenas peças de grande invenção.

Em O Rei do Baralho o amor pela experimentação está também em saborear os pequenos erros da filmagem e, por conseqüência, da vida.

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