Notas sobre a Polêmica de “Carlos”

– Olivier Assayas fez uma minissérie de TV de 5h20 chamada Carlos. Ela foi excluída da competição do Festival de Cannes desse ano porque não foi feita diretamente para o cinema.

– Li que a exclusão causou polêmica e se deu por uma questão de “pureza do cinema”. Pureza é coisa de madame, esnobe, católico, viciado em cocaína e filtro de água.

– Cinema é esculhambação, diria Jairo Ferreira. Raul diz: Cinema é bastardo, é vira-lata. Sangue azul não roda a 24 quadros por segundo.

Outra coisa: estamos em tempos de Audiovisual. Estamos? Até quando isso vai ser só uma palavra para estampar catálogos de mostras e fachadas de cursos superiores? Muita gente insiste na diferença entre as mídias única e exclusivamente pelo tamanho da tela (Freud explica?). Olga tem sensibilidade de novela na tela grande; Alice tem sensibilidade de cinema na TV. Quem é o que, cara pálida? Essa diferenciação é preconceito racial – supérfluo e descabido.

– Se o tamanho da tela é o peso na balança, conheço telas de TV maiores e sistema de som caseiros melhores que as encontradas na sala 5 do Espaço Unibanco Augusta (o anexo).

– O Festival de Cannes fez essa exclusão porque tem regras. E como a maioria das regras, elas são arbitrárias. Inventou uma explicação estética para justificar uma arbitrariedade. O relincho do curador do festival é esclarecedor: Cannes é um grande mercado de grife, a Meca das marcas cinematomodistas, reduto das Guccis, Armanis e Louis Vuittons do cinema contemporâneo. E assim tem que continuar – pelo menos na aparência.

– Sempre lembrando e é importante lembrar: nem tudo que reluz é ouro e nem tudo que bóia no mar é merda.

– Enquanto os países da periferia do cinema discutem se o financiamento das TVs é bom ou nocivo para a piureza d’art, a indústria norte-americana injeta dinheiro, injeta 3D, injeta filmes nas salas ao redor do mundo e injeta frescor via produção das melhores séries de televisão, como atestam Família Soprano, Deadwood, Roma, Lost, Curb Your Enthusiasm, The Wire, Extras, Treme.

– Antes do esporro, o silêncio: é hora de rever os conceitos (nós do cinema 100% estatal) ou ficaremos de mãos abanando.

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