O Novo 5 x Favela

Antes de mais nada: isso não se trata de uma crítica ao filme, mas um apontamento de questões a partir do que até agora foi veiculado na mídia (revistas, jornais, internet e a cobertura da exibição em Cannes) sobre o filme em questão.

Agora os fatos: na recém lançada Filme Cultura nº 50 (mais sobre ela no futuro), um dos primeiros artigos da revista é um texto escrito por Carlos Diegues sobre o projeto 5 x Favela, Agora por Nós Mesmos.

O filme, como o nome indica, é uma volta à favela e aos temas do clássico Cinco Vezes Favela. Porém agora os diretores dos episódios que compõem o longa são oriundos das comunidades, participaram de oficinas cinematográficas e outros projetos artísticos nas favelas. Houve uma seleção interna entre os alunos das oficinas cinematográficas e chegou-se aos cinco curtas do filme. O coordenador geral do projeto foi Carlos Diegues.

Há algumas coisas que me incomodam. A primeira delas: por que revirar o morto?

Cinco Vezes Favela é um clássico do cinema brasileiro ainda que seja um filme muito desigual e reflita a visão burguesa da classe média daqueles jovens diretores em meados dos anos 60. Essa visão é parte integrante do filme e de seu posicionamento na história do cinema brasileiro. Diz muito sobre aquela geração do cinema – e não apenas ela. Por que revisitar o filme com uma proposta que busca desde o título opor-se àquela visão, como se o olhar daquela época estivesse errado? Por que o mea culpa encabeçado por Diegues?

Seria o caso de fazer um novo filme, não uma exumação. O projeto atual tende a entrar na comparação, vai ser sempre uma releitura, estará em choque constante com o filme anterior, porque se propõe a ser o outro lado, o lado verdadeiro, o lado com conhecimento de causa. Isso pode, em certa medida, ofuscar um filme que poderia ser de fato um novo olhar para a favela, mas que, na postura indicada, quer se afirmar por oposição. Pois agora o olhar é de “nós mesmos” e não de “vocês aí”. O que isso acarreta cinematograficamente?

Outra coisa é, obviamente, o Sr. Diegues. Tudo bem que ele foi coordenador do projeto e provavelmente sua viabilização só foi possível com essa chancela. Mas se agora é por “nós mesmos” porque o Diegues tem que falar tanto, escrever tanto, mediar mesas com os diretores, levar o filme a Cannes, apresentar os autores ao mundo como quem diz “estes são eles mesmos”?

Isso me parece uma repetição da mediação intelectual da qual o filme tanta fugir. O “nós mesmos” depende de Diegues para ter cara. O que está acontecendo é exatamente isso: Carlos Diegues é a cara do projeto. Ele é o mentor, o padrinho, aquele que recomenda e também quem responde pelo projeto. É, mais uma vez, a classe média cinemanovista fazendo seu papel de intermediário entre a burguesia alienada e a “verdade” lá fora.

Li em outro lugar (acredito que foi na cobertura do Kleber Mendonça Filho em Cannes), uma entrevista com os diretores do filme e um deles dizia que o nome original do filme era 5 x Favela, Agora Por ELES Mesmos. Foi supostamente o Ruy Guerra quem alertou para o problema de que título era Diegues falando. Eis a questão que fica transparente até o momento: os diretores do filme são personagens da ideologia da intelligentsia cinemanovista: dar voz ao outro, aos excluídos, como se eles não fossem capazes de dizer por si só. Eles podem fazer um filme, sem dúvidas, mas a mão que ajuda as crianças a atravessarem a rua tem de ser a “nossa”, pois eis quem tem a consciência. Igual a 50 anos atrás.

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