Vício Frenético (Werner Herzog, 09)

Mundo-Caos

A única serventia de se comparar a refilmagem de Vício Frenético com seu original é entender as diferenças que movem dois cineastas como Abel Ferrara e Werner Herzog. Isso porque, a rigor, são dois filmes partindo do mesmo princípio – as andanças de um policial corrupto viciado em drogas – que chegam a duas visões completamente diferentes sobre a forma fílmica e o “funcionamento” do mundo.

Ferrara estava mais interessado no que é matéria, no apodrecimento, na decomposição. Em resumo, no corpo. Como bom católico, os êxtases de seu protagonista através da droga não são transcendências espirituais e não abrem portas de percepção, estão ligadas ao limite do corpo humano e sua perenidade, ficando claro isso na nudez frontal e monstrenga de Harvey Keitel.

Nada mais diverso do pensamento de Herzog, um diretor tão “mestre do universo” – ou seria apenas controlador? – quanto Ferrara, mas muito mais interessado nas regras que nas peças do jogo. O seu Vício Frenético é uma luta do personagem contra um universo de regras obscuras, ou melhor, onde o caos parece mais vantajoso que a moral.

Há também uma degradação física, é verdade, mas ela está mais ligada à visualidade, à perturbação de ver um defeito na tela causado por um acidente cuja explicação escapa de nossa vã filosofia. Estamos diante de um Corcunda de Notre Dame duvidoso, como é duvidosa a escolha de Nicolas Cage e sua também duvidosa lista de projetos os quais emprestou sua persona.

Porque é disso que é feito o universo de Herzog: dúvida, caos, coisas obscuras, regras indecifráveis. No início do filme, o protagonista faz a coisa certa e fica com um defeito físico para o resto da vida; depois, ele faz as coisas completamente erradas e tudo dá certo para ele. Isso é Herzog e seu mundo, onde as coisas acontecem independentemente da vontade ou do esforço pessoal das pessoas; não é sorte, nem azar, nem moral, muito menos questão de mérito. Ou alguém acha que Treadwell merecia ser comido por um urso pardo em O Homem Urso?

É um estado de anterioridade que se materializa nas imagens dos répteis que rodeiam o personagem principal, como se as pessoas estivessem num mundo pré-histórico, onde o homem é ainda um ser animalesco, os répteis andam junto deles à espreita e uma alma dança em frente a seu corpo morto. Por isso, a ótima escolha de ambientar a história em New Orleans logo após o desastre do furacão Katrina em substituição à Nova Iorque (templo sagrado do materialismo) do filme original.

Li que Ferrara se sentiu roubado com a refilmagem de Vício Frenético. Por outro lado, Herzog afirma que nunca viu o original. Pouco importa. A estética de Ferrara é material, a de Herzog de idéias. Por mais que a linha mestra seja a mesma nas duas versões, um filme é feito mais pelo que se encontra nas camadas profundas e não pelo que se vê na crosta.

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