Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (Emmanuel Laurent, 09)

A realidade não é nada

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague é interessante para abrir a mente das pessoas. O gênero documental pode ser muito mais que uma simples aproximação com o real (o que é por si só discutível, mas não vem ao caso agora). A grandeza desse filme está aí: se propor como discurso antes de tudo, como uma re-elaboração de uma história de amizade entre dois cineastas, sem almejar essa pretensão narcisista do “real”.

O fato de Antoine De Baecque ser o roteirista do filme é sintomático: ele é o teórico autor de biografias tanto de Godard quanto de Truffaut. E o filme não pode ser considerado uma arqueologia do cinema como O Inferno de Henri-Georges Clouzot, nem uma investigação da personalidade como Glauber, O Filme – Labirinto do Brasil, pois antes de tudo há a pulsão de interpretar, estabelecer paralelos e escrever a narrativa desses dois cineastas sob uma ótica específica: a de um amante do cinema como qualquer outro.

Daí o papel importante dos recortes de jornais, das capas da Cahiers du Cinéma, das fotografia de imprensa dos cineastas, das páginas envelhecidas pelo tempo. Essas relíquias são pontos de contato do amor pelo cinema, tanto dos críticos com suas polêmicas em defesa do cinema que amavam e dos cinéfilos que encontravam nas palavras de Truffaut e Godard um porto seguro para demonstrarem sua paixão.

Emmanuel Laurent não quer com seu filme desbravar a vida particular das personagens; apenas contar a história pública de dois amigos que caminharam para lados opostos, culminando num violento rompimento. Funciona como uma biografia: é discursivo, anedótico, anda no tempo como quem procura fatos para contar. Por mais que o filme se aproxime do contexto histórico francês e do cinema da época, o que interessa é essa “fábula de amizade”. Tanto que uma terceira personagem se encontra no meio desses dois gigantes do cinema: Jean-Pierre Léaud. Enquanto Truffaut usa o lado mais tenro e singelo do ator, Godard usa sua gravidade e seriedade. Léaud é a materialização, nos filmes, das diferenças que separaram os dois cineastas. É, por outro lado, o que os une: seu jeito simples, amante das pequenas coisas da vida, como o cinema.

Uma amiga me diz: falta mais participação dos outros cineastas da Nouvelle Vague. Se levarmos em conta um documentário by the book, ela de fato tem razão. Como Godard e Truffaut… se trata essencialmente de um discurso boigráfico, isso pouco afeta o resultado final. Aliás, é permissivo que falte um pouco de Chabrol, Rohmer e Rivette em favor de outras construções (como a de Léaud, por exemplo). São dessas boas escolhas que se fazem filmes coerentes com a história que conta.

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