Alice no País das Maravilhas (Tim Burton, 2010)

Coisas Concretas

Ouvi tanto sobre a traição de Tim Burton à obra-prima de Lewis Carroll que sinceramente não vi nada demais. Acho que a cegueira dominou meu senso crítico. A tal “traição” de Burton é tão relevante quanto a de Herzog em relação ao Vício Frenético de Ferrara. Nasce do marketing mais que da obra em si.

Caso se olhe para o filme sem os preconceitos de fãs – e os de Alice são muitos – fica claro que o diretor americano evitou entrar na obra de Carroll como um diretor sensato foge de adaptar Crime e Castigo ou O Vermelho e o Negro. Burton propõe outra coisa, não uma adaptação; talvez uma releitura.

Alice já não é mais a menininha que pensa em mundos malucos, frases surreais e idéias desconcertantes. Ela cresceu, tem de lidar com coisas mais concretas: a sociedade, as aparências, as questões de classe.

Sua volta ao País das Maravilhas é um encontro com questões sociais e políticas. Não se trata mais de um descobrimento das potencialidades da imaginação numa defesa da eterna infância. Agora o negócio é palpável: Alice é um elemento de rompimento do status quo. É o não contentamento com as formas impostas pelo jogo social e político (e econômico se puxarmos um pouco as rédeas para o cinema e sua arte) que fala Burton.

Então, não se pode falar que o diretor americano tenha adaptado o livro de Carroll, mas sim partido de seu universo para propor outras questões, outras formas de expressão, outros comportamentos, outros significados. Falar desse Alice de Burton sob o viés de Lewis Caroll, fazendo um balanço da fidelidade da obra e de pontos específicos num check list do que está ou não na versão cinematográfica, é falar de outro filme, não desse.

E o filme de Burton tem uma vontade de refletir o estado político de nosso tempo em seu País das Maravilhas (e talvez aí ele seja muito fiel a Carroll). As lideranças políticas são marcadas mais pela aparência e pelo gestual, por sua capacidade de ser personalidade, do que pelo que tem a dizer: a Rainha Vermelha é uma cabeçuda cercada de puxa-sacos que fingem ser algo que não são para estar do lado de seu poder mantido através da repressão; já a Rainha Branca vive num mundo lindo à parte esperando seu “campeão salvador”, enquanto diz uma série de boçalidades fazendo poses de princesa; o Chapeleiro é o maluco que representa uma espécie de utopia revolucionária, morta à muito tempo. São versões dos ditadores, líderes liberais populistas e esquerdistas às antigas.

Alice, por outro lado, entra nesse jogo como a salvação ponderada, cuja força está na individualidade que move seus pares. É a novidade, a diferença, o esclarecimento, o que antigamente se chamava de “terceira via”.

Essa representação política é um pouco canhesta, mas se sustenta em boa parte do filme, cria, por um lado, a tensão da luta política no País das Maravilhas e toda a parte de ação amalucada do filme, porém, por outro lado, cria momentos ruins como a trajetória melodramática de desilusão do Chapeleiro.

O grande problema do filme parece ser anterior: o 3D. Não que o 3D seja a nova maldição do século, mas há uma secura visual que é decorrente de ter de usar os efeitos especiais e a conceber o filme com a sensação da profundidade. Não engulo a desculpa de que o visual é inspirado nos livros infantis que se abrem em relevo para o leitor (e a construção meio tosca desse 3D parece afirmar isso). As qualidades plásticas de Burton parecem limitadas pela tecnologia. O filme é fosco para olhos. Algo está descolado: a experiência visual de Alice enfraquece suas (interessantes) idéias iniciais.

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