112 Anos de Cinema Brasileiro?

Para quem não sabe, o cinema brasileiro “nasceu” em 19 de junho de 1898, um domingo. O paquete Brésil entrava na Baía de Guanabara e um de seus passageiros era Alfonso Segreto, irmão de Paschoal Segreto, dono de casas de diversão no Rio de Janeiro da época. Alfonso trazia consigo equipamentos e material sensível. Filmou sua chegada na baía. Aí, o bastardo parido.

No livro Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, Jean-Claude Bernardet tece algumas considerações sobre o assunto:

“(…) a partir dos anos 1960, outros pesquisadores, como Jurandir Passos Noronha ou Paulo Paranaguá (1981), vão aceitar esse nascimento, que não deixa de ser estranho: um italiano (radicado no Brasil), com equipamento e material sensível europeus, filme, em território francês (o paquete Brésil), um filme brasileiro.”

“No entanto, podemos dizer que 1898 representa uma forma de modernização conforme a qual uma sociedade incorpora uma tecnologia oriunda de país industrializado, tecnologia que ela não transforma e da qual se torna dependente. Tal situação não impede que essa sociedade possa criar informações de segundo grau a partir da tecnologia importada, que , no entanto, não alteram esta última, o que impede uma real apropriação.”

“(…) para Sadoul e seus sucessores, o nascimento do cinema é uma representação pública e paga, ou seja, um espetáculo, o filme na tela diante de espectadores que pagaram ingressos para ter acesso à projeção. Enquanto para os brasileiros, o nascimento do cinema é uma filmagem.”

“A escolha de uma filmagem como marco inaugural do cinema brasileiro, ao invés de uma projeção pública, não é ocasional: é uma profissão de fé ideológica. Com tal opção, os historiadores privilegiam a produção, em detrimento da exibição e do contato com o público. Pode se ver aqui uma reação contra o mercado: à ocupação do mercado, respondemos falando das coisas nossas. E não é difícil perceber que esta data está investida pela visão corporativa que os cineastas brasileiros têm de si mesmos, e por uma filosofia que entende o Cinema como sendo essencialmente a realização de filmes.”

Há muito de provocação, claro. O livro foi escrito no período pós-Embrafilme, ou seja, com a produção brasileira estagnada. Tratava-se o cinema brasileiro como se ele não existisse mais, porque não produzia filmes de longa-metragem, mesmo com a subsistência da produção de curta (que viria a formar a primeira geração da retomada). Mas fica uma questão ainda (entre tantas outras): há de se comemorar esses 112 anos ou temos muito de aprender ainda com essas “provocações”?

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