Homem de Ferro 2 (Jon Favreau, 10)

Sob a Armadura

Admito que estou em posição privilegiada. Já li alguns textos sobre O Homem de Ferro 2 quando do lançamento nas salas brasileiras, ouvi algumas opiniões de amigos e de amigos de amigos em conversas de bar. Em resumo, demorei muito para ver o filme e as opiniões estavam formadas. Isso tudo pode até influir no meu senso crítico quando me debrucei sobre o filme. Mesmo assim, não vou parar nunca de defender Homem de Ferro 2, uma aventura de cinema.

Um filme. Texto e atores num fluxo que segue o ritmo imprevisível da vida. Neste sentido, não é apenas um filme; é hawksiano. Não é como se toda a estrutura estivesse em frente à câmera para ser captada. É exatamente o oposto: o mundo se deixa filmar pela câmera, que corre atrás das ações.

Jon Favreau foge do esquema básico dos filmes de super-heróis ao dar centralidade para o jogo de atores e diálogos, criando um frescor que passa do texto para a diegese. Que confusões e trapalhadas pode Tony Stark? Qual será a próxima bobagem de Justin Hammer, seu principal concorrente e um completo boçal? Isso só é possível porque estamos falando do Homem de Ferro. Explica-se: como se adapta para o cinema Crime e Castigo ou Ulisses que, além das dificuldades inerentes ao corpo da obra, ainda possuem uma legião de fãs prontos para devorar o maluco que se acha capaz de reduzir esses monumentos da cultura em um filme de duas horas?

O mesmo pode ser dito dos super-heróis: como transpor Homem-Aranha, Batman, Super-Homem, X-Men para as telas? Eles são ícones para um universo de pessoas que devoram apavoradamente gibis. Já Tony Stark e sua armadura sempre foram do segundo time, daqueles que preenchem páginas, mas não o imaginário. A partir de um personagem dos quadrinhos um pouco deixado para segundo plano, é possível abrir caminhos e recriar seu universo para discutir os temas que mais intrigam o realizador.

Daí resultam duas coisas bastante interessantes em Homem de Ferro 2. A primeira delas é o elogio ao politicamente incorreto que se apresenta no conjunto Robert Downey/Tony Stark. Isso já se apresentava no primeiro filme, mas aqui ganha outros traços. Stark não tem medo de mandar tudo às favas e entrar em terrenos como a autodestruição (tão grande quanto sua futilidade), a satisfação dos desejos (seu primeiro contato com a Scarlett Johansson se dá pelo interesse sexual de Stark), a alimentação do egocentrismo, a vingança sádica (humilhar o senador, que o acusara, na frente das câmeras). São temas excluídos dos filmes de HQs, cujo caráter edificante dos protagonistas joga para a periferia da obra temas mais espinhosos: os alívios cômicos, os vilões, os parceiros de ocasião. É uma galeria de personagens com temas fortes (o mais evidente é o Coringa de O Cavaleiro das Trevas) que são apenas resvalados pelas narrativas. Aqui, não; Stark é um poço de coisas incorretas e, como protagonista, traz todas elas para o centro da narrativa, não para, no final da trama, censurá-las. Quando no final, Tony se vinga do senador que tentou condená-lo como traidor da nação, o filme propõe a humanidade de suas ações, pois sabe-se que por debaixo da armadura está um ser humano com defeitos e excessos como outro qualquer.

A segunda coisa é a crítica direta às megacorporações. Esta arma suas teias sobre o espetáculo (a feira de atualidade que faz plano de fundo para parte do filme), o congresso, o exército, a própria guerra. Essa crítica se insere no enredo, expondo seu alvo ao mostrar o alcance que o tráfico de influências pode ter sobre as pessoas diretamente, pela mídia, ou indiretamente, pelas armações políticas, as quais nunca somos sabedores. Apesar da força e presença de tela do vilão interpretado por Mickey Rourke, a política do filme reside sobre Justin Hammer, maravilhosamente interpretado por Sam Rockwell. Seu personagem é ironizado de maneira sutil: Hammer é apenas um boçal, um negociante ignorante e de imaginação limitada. Rourke serve como o contraponto a isso e, na mesma medida, sua exposição completa. A fantástica cena em que Rourke desce do avião e dá de cara com Rockwell nunca mesa elegantíssima com comida refinada e garçons bem trajados mostra o quanto o prolixo Hammer não tem noção do que se passa ao seu redor. Sua pulsão é a mais torpe e discutível de todas: ter em suas mãos a arma mais poderosa do mundo para ganhar a maior quantidade de dinheiro possível.

Há uma construção sofisticada no filme: Hammer só não é o verdadeiro vilão porque Rourke está lá. E o Homem de Ferro está lá para combatê-lo. Porém, nem este vilão nem a armadura super-poderosa existem. Neste mundo, há apenas os negociantes ignorantes e sem imaginação. Em Homem de Ferro 2, o dinheiro move os vilões do mundo real. E contra eles, só resta o está por debaixo da armadura: a criatividade e a irreverência.

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