Chico Xavier (Daniel Filho, 10)

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Como bem lembrou o Inácio Araújo, o cinema é o lugar dos nossos preconceitos. E por isso o senso crítico de muitas pessoas continua infestado desse mal, seja para dizer que o cinema de arte é invariavelmente chato, seja para identificar a falta do ideal artístico no cinema comercial. Algumas pessoas olham para Os Famosos e os Duendes da Morte e enxergam obra de beleza rara, pois há ali uma pulsão imensa em ser só artístico. Afinal, Esmir Filho é um jovem auteur e esta moeda tem muito valor, ainda que seu primeiro longa seja uma imensa bobagem. Já olhar para Chico Xavier requer o desprendimento de uma série de rótulos: filme comercial, Daniel Filho, Globo Filmes, atores famosos, religião, figura mítica. É muito fácil evitar Chico Xavier como desejar de paixão As Melhores Coisas do Mundo. Esse e outros preconceitos demorarão a mudar.

Mudança de vista é uma das propostas de Chico Xavier: olhar o homem através de sua trajetória, como já antecipa a cartela inicial. Pois não se vai tocar no Chico Xavier verdadeiro, mas no Chico-imagem, aquele visto e que vamos ver sob outra perspectiva, como o diretor de TV verá as coisas sob outra ótica.

Sim, há um conteúdo religioso, afinal Daniel Filho está lidando com uma figura religiosa, mas mais que defender bandeiras ou tentar definir uma possível verdade, o filme é ecumênico, tentando abarcar a fé como algo a ser respeitado, mas não intocável, pois pode modificar-se: você acredita em algo e pode, a qualquer momento, acreditar em outra coisa.

Desvendado seu discurso de aceitação, Chico Xavier é, também, o mais interessante trabalho do artesanato de Daniel Filho. Ele desdobra sua trama para outros lados que não a narrativa linear da vida de Chico Xavier, como o drama do diretor de TV e sua mulher, o retrato dos bastidores do estúdio, o desenrolar do programa Pinga Fogo que serve de costura para às outras narrativas do filme. Pensando numa biografia de caráter comercial com marca Globo Filmes, há uma tentativa de Daniel Filho de enriquecer a forma do filme, fazer um jogo que fuja da linearidade de seus trabalhos anteriores (não lembro outro filme seu que tenha pulos no tempo e tantos planos narrativos como esse).

Claro que existem soluções narrativas pobres (penso principalmente nas cenas com Letícia Sabatella), mas fica evidente uma vontade por parte do realizador de propor um novo jogo dentro de sua filmografia, movimento este que já germinava em Tempos de Paz, com resultado mais desigual que agora. Daniel Filho se arrisca mais neste filme que em qualquer outro que já realizara, com risco óbvio de obter resultados de diferentes qualidades, alcançando, porém, bons momentos, principalmente as idéias narrativas que resolvem os momentos em que a biografia de Chico Xavier em si são abandonados. Em vários desses momentos, Chico é deixado de lado pelo som do programa Pinga Fogo que vai cedendo lugar às cenas da narrativa paralela. Poucas idéias sonoras subsistiam em Daniel Filho (ou seria no cinema brasileiro como um todo?).

É oportuno lembrar aos menos crentes: um filme é feito de técnica também; e um realizador que investe o domínio desta em novos rumos é recebido com simpatia. Chico Xavier é o melhor filme de Daniel Filho e seu trabalho mais forte no uso do artesanato de encenador, aquele no qual se entrega a maiores riscos. É óbvio que não irei defendê-lo como um auteur, mesmo porque este epíteto é, muitas vezes, abusivo. Muitos dos ditos “autores” se debruçam em uma zona de conforto que os impede de enxergar para além de suas crenças. E alguns continuam a celebrá-los.

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5 comentários
  1. Pedro Arantes disse:

    Ainda não vi o filme, então talvez seja idiota comentar. Mas pra mim, Raul, nessa você brilhou.

  2. Sacanageiro disse:

    Brilhou por causo do batom com glitter que ele comprou na 25! L-U-X-O!

  3. Anônimo disse:

    Discordo do post quase como um todo.

    Vou me ater, entretanto, ao fato de que não há nada de errado em acreditar. Os filmes estão em função de todas as outras coisas do mundo, eles não são em si, feitos de técnica e ar e, para isso, a fé do seu chamado artesão em alguma delas, mais do aceitável, é necessária. Nada disso tem a ver com autor ou não autor, mas se nessa mistura de conceitos, autor for quem imprime alguma paixão ou verdade reelevante num filme e não celebrar que o Daniel Filho conseguiu aplicar uma estrutura de roteiro que é largamente utilizada desde Cidadão Kane, talvez, nos seus termos, eu celebre os autores.

    e “um realizador que investe o domínio desta em novos rumos” sobre o Daniel Filho e esse filme é pegar pesado, heim. Só dou um desconto pela coerência do meu comentário já que vc está criando uma falsa verdade só para defender crença.

    • Jasmin disse:

      Esqueci de colocar meu nome, mas fui eu que escrevi isso daí de cima.

    • Raul Arthuso disse:

      Concordo com a questão do autor, mas bem, há uma questão irônico quando eu uso a palavra “auteur” e não “autor”.
      Outra coisa: a frase que você citou, fora do contexto, fica terrível e inaceitável. Dentro do conceito geral do texto, claramente estou falando do Daniel Filho dentro de sua própria filmografia, não em comparação com mais ninguém. Não digo em nenhum momento que o filme dele vale mais que o filme de outro cara. Só estabeleço uma linha de evolução dentro do cinema dele.
      Última: qual a falsa verdade? Que os cinéfilos acreditam em autores ou que o filme do Esmir Filho é uma merda?

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