O Escritor Fantasma (Roman Polanski, 10)

Rede de Mentiras

Em O Escritor Fantasma, Roman Polanski se atira no universo da mentira. A começar pelo protagonista, um mentiroso por profissão, já que escritor, mentiroso da arte, mas na verdade um ghost writer, mentiroso na prática.

Num outro nível há as mentiras políticas, personificadas pelo ex-primeiro ministro britânico Adam Lang, uma releitura de Tony Blair, outro grande mentiroso ao lado de seu fiel parceiro Bush-filho. O passado de Lang, cuja autobiografia é o trabalho para o qual o “Fantasma” – como o protagonista se refere a si mesmo, já que seu nome nunca é revelado – foi contratado, é tão misterioso e cercado de falsas verdades quanto as decisões de seu governo sob a tutela dos EUA.

O terceiro nível de mentira é a trama de suspense na qual o “Fantasma” se envolve ao tentar descobrir quem é a pessoa por trás das decisões políticas de Lang e, por conseqüência, principal suspeito de assassinar o antigo ghost writer do primeiro ministro. Aqui as personagens entram num jogo de sombras e espionagem enquanto a vida do protagonista é colocada em risco.

Porém, o grande mentiroso do filme é Polanski. A narrativa e seus três níveis de mentira são apenas pretexto para que o diretor dirija um irônico olhar sobre o país que o acolheu e agora o persegue. A trama política e suas viradas de espionagem e perseguição chegam até a serem óbvias e banais.

O principal é a espécie de identificação entre Polanski e seu protagonista, representado por Ewan McGregor. Em primeiro lugar porque o diretor brinca com a idéia de voltar aos Estados Unidos e ficar recluso em prisão domiciliar, usando o escritor fantasma como seu avatar. Assim como o diretor polonês, o “Fantasma” é um estrangeiro que se depara com um país envolvente, mas estranho na mesma medida – em sua chegada nos EUA, o “Fantasma” vai a um hotel cuja recepcionista se veste com roupas coloniais tradicionais. Em vários momentos, o Fantasma encontra outros britânicos que falam sobre os hábitos e o jeito de pensar dos americanos, sempre de maneira jocosa, numa crítica típica atitude de humor inglês.

Nesse sentido, estamos diante de uma obra com sabor hitchcokiano: o humor irônico, as tiradas dos diálogos, o tema principal por trás da aparente trama banal (no caso, descobrir a verdadeira razão que levou o primeiro-ministro a entrar para a política), o suspense, os jogos narrativos com o espectador (como quando o Fantasma começar a se identificar com o escritor anterior, morto de maneira suspeita), os objetos que desviam a atenção…

É um filme de McGuffin, mas antes de tudo um filme pessoal, uma obra de reflexão de um cineasta que fez vida e parte da carreira nos EUA, porém, como exilado, observa com olhar crítico esta terra e sua política internacional, mas não desprovido de rancor, sensação própria daqueles que sentem falta da perda. Afinal, lá é o lar cinematográfico idílico do autor de Chinatown e O Bebê de Rosemary, como a casa da infância da qual se muda, mas permanece na memória.

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