A Origem (Christopher Nolan, 2010)

Parla!

O alarde em torno de A Origem talvez se deva a sua mistura philipkdickiana-com-Matrix-Bond-Bourne-mais-pimenta-realista-de-Cavaleiro-das-Trevas. Algo na mistura, contudo, azeda. E é, me parece, a vontade de expor o universo auteurístico, deslumbrado que ficou seu criador como Pigmalião diante de Galatéia.

Num momento inicial, estamos diante de um filme que pretende embaralhar as referências do espectador quanto à dualidade sonho/realidade. Nesse terreno: imagens, ações, movimento – isso importa. É a cena de Arthur lutando sem gravidade, momento forte, pulsante. Idem para a cena de perseguição de carros na chuva quando um trem invade abruptamente a tela. E por que este trem nunca mais volta?

Porque Nolan tem um pé afundado no realismo; as coisas devem ser explicadas, ter limites, regras, funcionamento e funcionalidade. Já era assim em Amnésia – o esquecimento não embaralha, só inverte a direção criando uma nova ordem… ao contrário!

Nem no sonho o irregular reina: Cobb explica as regras do jogo o tempo inteiro, interrompendo a ação e sua potência de criar novas possibilidades e confluências. Queremos mais trens tomando a cena de assalto e trazendo o impossível para o centro da tela. Mas apenas o universo regrado de Nolan é possível.

Imagino Nolan ao terminar o roteiro, completamente maravilhado com seu universo esmiuçado ponto a ponto em sua estrutura rocambolesca, emular Michelangelo após o término de Moisés, dizendo: “Parla!”. Mas, em A Origem, eles mais que tudo parlam!…

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