Filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema – Parte 1

Sei que já passou algum tempo desde o fim da Mostra Internacional de Cinema, mas não custa, ainda assim, comentar um pouco os filmes vistos. Alguns deles merecem mais que as poucas linhas dedicadas neste texto de abordagem mais geral. Porém, o intuito aqui é apenas fazer um balanço, até mesmo mim. O clima de maratona não é fácil, mesmo quando a quantidade de filmes possíveis de ver nem foi tão grande.

Resolvi falar dos filmes na ordem em que foram vistos. Não quer dizer que é a abordagem mais interessante. Mas a organização é mais fácil assim e o relato sobre os filmes pode se aproximar mais da experiência como espectador (eu sei, tem um pouco de groselha nisso…).

Vamos ao que importa:

CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami

Ouvi dizer, antes de ver o filme, que Cópia Fiel era o Kiarostami mais palatável de toda a carreira. Na verdade, ele é muito próximo de um filme com o qual aparentemente não tem nada em comum – e que não tem nada de palatável: A Estrada Perdida, de David Lynch.

Os dois tratam, num certo sentido, de representação, mais ainda sobre identidade. Contudo, o grande ponto de inflexão dos dois filmes é a possibilidade de transformação das coisas. Em Lynch, trata-se da possibilidade de uma pessoa revelar-se outra, desconhecida de seus parentes, amigos, esposa e até de si mesmo. Aqui, qual a chance de duas pessoas que acabaram de se conhecer transformarem-se, de repente, em um casal em crise após 15 anos juntos? Absurdo, mas Kiarostami representa a trajetória de uma vida a dois através de um road movie turístico pela Toscana de duas horas.

AS QUATRO VOLTAS, de Michelangelo Frammartino

Este pequeno filme me pareceu, no início, um filme bucólico, observacional, carinhoso, mas aos poucos ele revela um humor único que justifica a ausência de diálogos (há inclusive uma cena com um cachorro agindo como um Tati canino). Revela-se, então, um filme de idéias: a troca de protagonistas, o retrato de personagens pouco comuns ao cinema narrativo, como uma cabra e uma árvore, o ciclo que reúne os elementos materiais de uma região e possibilita, aos entrelaçá-los, entender o “funcionamento” de um lugar – ou, parafraseando Drummond, a “máquina do mundo”. Do material ao metafísico que causa maravilhamento.

A CIDADE ABAIXO, de Christoph Hochhäusler

Um filme com um roteiro redondo, bons atores, personagens interessantes, e bem filmado, mostrando domínio da linguagem e construção clássicas. Mas e daí? Falta o tempero, a pegada. Funciona, mas não encanta.

TURNÊ, de Mathieu Amalric

Tudo bem que há um desejo de “cinema de trupe” por parte de Amalric, mas isso e o fato dele ser mais conhecido como ator, não tornam o filme um arremedo de Cassavetes. O grande problema de Turnê é que são dois filmes em um. Há o filme que acompanha a trupe de dançarinas neo-burlescas, com os problemas do show em si e o conflito interno de uma das personagens; e há também a história pessoal de Joachim Zand, sua falência, os conflitos com a família e amigos. Cada um deles tem desenvolvimento e problemas narrativos próprios, mas o principal é a pulsão de mais sugerir que de fato mostrar as coisas, como se as cenas existissem para captar um estado latente das personagens, o que acontece de maneira muito opaca. E esses dois filmes com problemas narrativos raramente se encontram.

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