Filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema – Parte 3

OUTUBRO, de Daniel Vega & Diego Vega

Filme observacional que tenta ser uma comédia de costumes. É bastante desigual, principalmente pela opção por tableux, como se quisesse compor um álbum de família meio desajustado. Por vezes alarga o tempo de maneira desnecessária.

AURORA, de Cristi Puiu

A Romênia foi a mais recente onda dos festivais internacionais com filmes que dilatavam o tempo como forma de desconstruir um tipo de história consagrada (melodrama, filme policial, comédia) e buscar a genealogia das personagens retratadas, como se a observação minuciosa e realista das ações pudesse explicar as ações das pessoas neste universo (no caso, a Romênia pós-abertura política). Aurora talvez seja o transbordamento disso tudo, muito por causa de sua duração, seu alinhamento dentro desta forma de abordagem dos filmes com tempos longos e uma câmera invisível observacional, mas muito mais pela série de coisas que tenta abarcar. A começar pelo indivíduo em crise, prestes a explodir, numa observação de construção do ato violento que tenta desconstruir a psicologia, aparentemente revisitando Taxi Driver. Mas Puiu busca depois retratar o desmantelamento das relações familiares, os costumes das pessoas que viveram as transformações do país e a burocracia, representada na figura da polícia (assim como em Polícia, Adjetivo), numa chave irônica. É um filme que seria muito melhor se menor, não só pela duração, mas pela quantidade de idéias que quer abordar. E este cinema da Romênia de festivais me incomoda por um aspecto comum: às vezes acho que vejo o mesmo filme em vários filmes. A questão está no cinema romeno ou na seleção dos festivais?

TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS, de Apichatpong Weerasethakul

Cara, confesso: não entendi nada! Quando terminou, eu ficava me perguntando o que tinha acabado de acontecer na tela. Mas fiquei muito, muito fascinado.

Não é que a história seja complexa, porque na verdade é talvez o filme mais narrativo de Weerasethakul. A questão de não entender nada é de conseguir articular as idéias que o filme me transmitiu, as sensações que me causou e construir um discurso para poder dizer algo. Preciso de uma revisão antes de escrever mais para o seu lançamento comercial (vamos torcer!).

Se eu tivesse que escrever uma crítica para um jornal ou uma revista de cara, eu diria que o filme me parece um diálogo com o primeiro cinema, com o movimento natural das coisas do mundo como nos Lumière, cenas diurnas com uso escancarado de filtro azul para simular uma noturna, os fantasmas que aparecem em trucagens a la Méliès e, principalmente, a confiança na luz como forma de revelação.

Porém, como já disse, é pura especulação, primeira impressão de um filme que me parece tão misterioso quanto fascinante.

MINHA FELICIDADE, de Sergei Loznitsa

Um dos filmes mais celebrados do último festival de Cannes, Minha Felicidade confirma a tendência de alargamento do tempo para uma observação genealógica das coisas do mundo. Ainda que neste caso haja uma tentativa de maravilhamento explorando diferentes tempos na narrativa, a verdade é que depois de quarenta minutos interessantes de personagens desfilando pela vida de um caminhoneiro, o filme fica catatônico de idéias assim como o protagonista. É picaretagem, travestido de alta classe cinematográfica.

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